Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de janeiro de 2021

Sábado, 9 de janeiro de 2021

Hoje escrevo sobre o que esperar de Marcelo no próximo mandato e a tentativa de golpe de Estado na “maior democracia do mundo”, e como a importância do golpe está a ser substituída pela sua espetacularidade hollywoodesco-instagramística — que, esta sim, é uma tremenda arma de destruição maciça da democracia. Com um linklog especial para aprofundar o golpe, a democracia, o trumpismo e as repercussões dele.

Amanhã tenciono escrever sobre a cortina de censura que desceu sobre o Presidente dos Estados Unidos da América. Entre os aplausos e as chamadas de atenção para os perigos do poder censório efetivo que o episódio revelou.

Mas antes: umas boas vindas especiais para ti, um dos muitos assinantes, um recorde deles, que lê o diário pela primeira vez.


1
Marcelo vai ser reeleito PR. O que esperar do segundo mandato? Em primeiro lugar, vai perder o pouco pudor que ainda refreia o seu ímpeto presidencialista, executivo, e aumentará a pressão sobre Costa. O Primeiro Ministro terá dificuldade em apresentar como uma iniciativa sua a próxima remodelação governamental que incluir ministros.

Em segundo lugar, esperará pelo desastre laranja nas autárquicas do próximo outono para promover uma mudança de liderança no PSD. Até aqui não teve espaço de manobra no seu partido de origem porque este desconfia dele e está descontente com o entendimento entre Belém e São Bento. A dimensão do desastre autárquico e o resultado do seu confronto com o Governo são as baias da futura intervenção de Marcelo no PSD.


2
O tom picaresco com que entretanto vem sendo apresentado, acentuando toda a atenção nas fotogénicas vestimentas dos guerreiros e nas suas idiossincrasias, como se as personalidades dos soldados fossem o material de que se fazem mas guerras, descaracteriza e normaliza o ataque ao Capitólio. Mas à medida que se apuram pormenores do que sucedeu no dia 6 na capital dos EUA cresce a certeza de que se tratou efetivamente de uma tentativa de golpe de Estado, uma conspiração preparada por Trump e com cúmplices no partido republicano e ao mais alto nível do aparelho de Estado. Este artigo de Heather Cox Richardson é extenso e não é fácil de ler; mas dá-te uma visão mais clara e uma informação muitíssimo superior sobre o que esteve — e está — em causa.

Aliás, se a política americana te interessa numa base perene, aproveita a ocasião para subscreveres a newsletter dela, Letters from an American. Um espetáculo. Se te interessa apenas episodicamente, deixa estar: eu sou leitor dela e replicarei sempre que o assunto tenha interesse para um cidadão europeu.

Um linklog especial

Decoding the flags and banners seen at the Capitol Hill insurrection. Many in the rabid mob who stormed the US Capitol came armed with a portable and potent weapon: a flag. There were large election banners, battle colors from the American Civil War, neo-Nazi flare, Christian symbols, and a smattering of national and state flags. Seen as a whole, they serve as a twisted ideological quilt for those who believe that the US election was stolen from incumbent president Donald Trump. // Anne Quito e Amanda Shendruk, qz.com

Was there a plan for hostages or killings at the Capitol? Those rioters, the bozos, were the ones who talked to the press, who waved gleefully to photographers, who selfied and streamed the entire afternoon, without even a thought that there might ever be consequences. They were doing it for the ’gram, and their story overwhelms the narrative because their faces and voices dominated the day. But there were other rioters inside the Capitol, if you look at the images. And once you see them, it’s impossible to look away. The zip-tie guys. // Dan Kois, slate.com

Why the GOP Can’t Quit Trump. The Republican Party’s — and the nation’s — dangerous Trump problem will remain once he leaves office. // David Corn, motherjones.com

State capitols reassess safety after violence at US Capitol. But if the U.S. Capitol — a shining symbol of democracy with a dedicated police force– can be overrun by a violent mob, could state capitols be next? // David A. Lieb, spokesman.com

Senior Trump Official Calls Him a ‘Fascist’. For four years, people like this official — lifelong Republican operatives — have convinced themselves that Trump’s obvious faults were worth tolerating if it meant implementing a conservative policy agenda. These officials believed the benefits of remaking the courts with conservative justices, or passing tax reform, outweighed the risks that a Trump presidency posed to democracy and to the reputation of the country in the world. Now, at the 11th hour, with 12 days left before Joe Biden is sworn into office, it’s clear to some that it was always a delusion. // Olivia Nuzzi, nymag.com

Billionaires Who Championed Trump Have Now Gone Largely Quiet. // Anders Melin e Devon Pendleton, bloomberg.com

What Next for the MAGA Insurrection? // J. Bradford DeLong, ProjectSyndicate

A banalização da «opinião» e os incidentes no Capitólio. Quando pudemos ver as imagens impensáveis da invasão do edifício do Capitólio, em Washington, D.C., por aquela horda de escória humana apoiante de Trump, estimulada pelo discurso irresponsável e delirante a que este deu notoriedade e convicta de que estava cheia de razão, percebemos o quão perigoso é tomar qualquer tipo de afirmação, por mais gratuita que seja, por legítima «opinião». Junto dos ignorantes e dos fanáticos, ela é facilmente transformada em convicção. // Rui Bebiano

Os ratos a fugir do navio: trumps, trumpinhos e trumpões nacionais. Aconteceu o que tinha de acontecer. Não me venham com surpresas, ou com “excessos” — era tão evidente que Trump iria tentar um golpe de Estado, primeiro através dos seus gnomos a pôr em causa os resultados eleitorais e a criar o ambiente para a insurreição do dia 6, com a tentativa de invadir e ocupar o Congresso e “kick the ass” aos “republicanos débeis” que não iam recusar certificar as eleições. // José Pacheco Pereira, Público ($)


3
Há dias um leitor menciono-me o seu agrado por eu reconhecer quando erro. Ora, reconhecer os erros é uma boa política comunicacional em qualquer circunstância e também um bom sinal editorial. Recordo a esse propósito que um dos pequenos detalhes que ajudaram a fazer a imagem do Público foi uma breve coluna ocasional intitulada “O Público errou”, com os erros de edições anteriores.



LIVRO DO DIA

Tenho mesmo de ler/ouvir isto: A Era do Capitalismo da Vigilância, de Shoshana Zuboff. Versão portuguesa pela Relógio d’Água. Versão original e audiobook na Amazon/Audible: The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power.

«Toda a gente deve ler este livro como um ato de autodefesa digital.» Naomi Klein; «Inovador, magistral, alarmante e imperdível» Financial Times; um dos 100 melhores livros do século XXI para o The Guardian.



OPINIÕES

João Rodrigues escreve sobre o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa: Quem vos avisa. LadrõesDeBicicletas 👉

J.-M. Nobre-Correia escreve sobre a importância da alteração de propriedade na distribuição de jornais: Interrogações que se querem evitar. NotasDeCircunstância 👉

Vital Moreira escreve sobre o voto: Vontade Popular (12): De Novo, O Voto Eletrónico. CausaNossa 👉

Daiane Andrade publica uma entrevista sobre Jornalismo e Comunicação para a Transformação Social: Jornalismo para a paz em tempos de ódio e violência no olhar de José Manuel Pureza e Sofia Santos. SinalAberto 👉

Francisco Louçã escreve sobre deflação e FMI: O risco económico da década: a deflação. Esquerda 👉