Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de janeiro de 2021

Domingo, 10 de janeiro de 2021

Hoje: um diário que consumiu mais tempo do que o habitual na recolha confirmação de dados, espero que sem prejuízo da escrita. Temas: a nova censura mundial; o fim do “modelo sueco” e uma atualização da pandemia covid-19, e ainda a bomba demográfica que pode ajudar a enterrar os EUA.

Antes: uma música para começar a semana: “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, muito bem tocados por Marta Pereira da Costa.


1
O Twitter baniu a conta de Donald Trump e gerou uma tendência: um pouco por todos os silos privados e fechados que estão ligados à Internet, as contas de Trump e os grupos de apoio foram suspensos ou banidos. A lista continua a crescer.

Temo estarmos a assistir ao nascimento de uma nova censura de escala mundial. Não se discute a fundamentação: a razão do Twitter assenta na lei e fez o que devia, pois Trump incitara ao crime de sedição. Mas o perfil e papel das “plataformas” continua largamente por determinar. Não temos o tipo de instrumentação legal para fiscalizar e sancionar as suas condutas, que por sua vez nem sequer estão balizadas. Não é suficiente dizer que são os novos meios de comunicação de massas: não são, não cumprem nenhum tipo de regulamentação específica e é altamente duvidoso que, na sua natureza global, se possam eficazmente regular como tal.

Este assunto está a merecer muita atenção. Voltarei a ele com maior profundidade.


2
Pandemia update.

Suécia. Foi um processo gradual. Que está a chegar ao fim. Como titula o Financial Times, “A distinta estratégia sueca para a Covid aproxima-se do fim com a proposta de confinamento”. O país está agora no caminho comum europeu. O rei Carlos XVI Gustavo da Suécia já tinha admitido: “falhámos”.

Ai é só uma gripezinha. O tweet original tem isto em animação. Mostra bem o desvio entre a pandemia e os surtos sazonais de gripe. Não têm mesmo nada a ver.

Portugal. Outro quadro impressionante: o número de mortos por dia no país. O dia 6 de janeiro de 2021 foi o dia com mais mortos, de longe, dos últimos 12 anos: 553. Quase 200 mortos mais do que no ano passado. Ou seja, e num único e paradigmático dia já em plena época de gripe, e em números aproximados, temos uns expectáveis 360 mortos de todas as patologias “normais” a que se somam 100 mortos covid-19 mais 100 mortos indiretos covid-19 (gráfico feito a partir de https://evm.min-saude.pt/, onde tens todos os dados públicos da mortalidade em Portugal).

A questão dos indiretos ganha cada vez mais importância. Espero eu. É aí que podemos medir o impacto real da pandemia no sistema de saúde.

Dito de outra maneira: os mortos covid-19 já representam 40% do total diário. Este número está em linha com a maioria dos países. Nos EUA o número de mortos em 2020 foi 12% acima do esperado. E há notícias de que a percentagem de mortos diários nesta altura — o programa de vacinação está a correr lento sob fortes críticas — estará a rondar os 50%. (Nota: não obtive ainda uma fonte com dados para esta percentagem.)


3
Bomba nuclear demográfica nos EUA: em 2019 o país registou apenas 58,2 nascimentos por 1.000 mulheres de 15 a 44 anos, um declínio de 1% em relação ao ano anterior e o nível mais baixo desde 1984. A população global nos EUA aumentou apenas 0,4% em 2020 para 329 milhões — a taxa de crescimento mais baixa desde pelo menos 1900. A Brookings Institution prevê que os EUA poderão registar menos 300.000 nascimentos este ano devido aos efeitos mais vastos da COVID-19.

As alterações demográficas devem ser levadas com cuidado: costumam demorar anos até serem concretas. É cedo para dizer se estamos perante uma tendência de decrescimento, embora todos os indicadores apontem nesse sentido. A confirmar-se, terá consequências imprevisíveis na maior economia do mundo, cujo sucesso está intimamente ligado ao crescimento constante da sua população.



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