Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de janeiro de 2021

Segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Hoje foi o dia em que o Presidente da República testou positivo à covid-19, estando assintomático. Temos um número, uma frase, a paixão dos jornalistas por Ventura e a ciberdesinibição. Além das secções fixas, livro do dia e opiniões. Amanhã faço um apanhado do correio dos leitores.


1
11 de janeiro: tendo o Presidente da República testado negativo ontem, e apesar do teste antigénio de hoje ser negativo, soube-se agora, às 21h40, que o teste PCR deu positivo. O Presidente da República, que está assintomático, comunicou ao Presidente da Assembleia da República, ao Primeiro-Ministro e à Ministra da Saúde e, encontrando-se a trabalhar em Belém, aí ficou e ficará em isolamento profilático na zona residencial, aguardando o inquérito epidemiológico (reproduzo do site oficial).


2
O número: 4.625, o meu cálculo para o número de vacinas administradas por dia desde o início do processo de vacinação em 27 de dezembro. Um ritmo demasiado lento ainda. Se te disser que precisamos vacinar 4x mais depressa, perto dos 20.000 por dia, 7 dias por semana, para ter 70% da população portuguesa vacinada num ano, fica claro o que temos de andar. A velocidade está evidentemente condicionada ao ritmo a que as doses chegam. Até final desta semana virão as primeiras 8.400 doses da vacina da Moderna. Com as 79.950 da Pfizer/BioNtech que entretanto já chegaram, é provável que o processo de vacinação acelere. O que há mais, por esta altura, é agulhas e gente e locais.


3
Frase a ter em conta, esta de Porfírio Silva numa televisão privada e no Facebook: “Quanto aos privados, não há nenhum dogmatismo ideológico: há, desde março, um protocolo para activar hospitais privados, mas poucos querem, preferem manter as suas actividades rentáveis em vez de ter doentes Covid. Contudo, se for necessário deverá recorrer-se à requisição civil.


4
É conhecido o flirt dos media com André Ventura. A figura é um excelente veículo de indignação, a emoção que é o principal canalizador de tráfego para os sites de jornais e o mais forte chamariz que os alinhadores dos telejornais consideram nas suas opções. É fascinante ver a evolução da paixoneta, como os jornais e os jornalistas se atropelam a ver quem faz o título mais entusiasmante, mais controverso ou pelo menos mais engraçado. Fascinante e muito elucidativo.

Este exemplo das últimas horas é uma delícia. A imagem acima mostra a seleção feita por Cecil, o ente digital que me dá apoio, a partir da imprensa online que acompanhou os comícios de Ventura no fim de semana. Nota como o editor do Expresso desta vez bateu toda a concorrência, excedendo-se no título. Contém “Le Pen” e “Ventura”, dois termos 10/10 em linkbait, uma ternurenta e elogiosa expressão capaz de arrancar um voto ao mais empedernido eleitor laranja, sem esquecer a intenção “séria” retirada das propostas do Grande Líder da direita radical que o Expresso tem vindo a apoiar sem disfarces (só falta assumirem o endosso em editorial assinado pelo diretor João Vieira Pereira, ou pelo adjunto David Dinis, o que deviam fazer a bem da transparência, a exemplo das publicações anglo-saxónicas de referência).

Uma maravilha, uma inspiração!


5
E por falar no meu antigo jornal: finalmente, uma campanha promocional de jeito na imprensa portuguesa! O Expresso fez 48 anos no dia 6 e tem uma oferta irresistível, tão irresistível que cá em casa não resistimos e assinámos: 48 edições por 48 euros, um euro por semana. Ainda é caro.

Mas o pior não é ser caro. É o processo. Penoso, diabólico, passwords, login, logout, vai à impresa.pt, vem, passa nos nónios, diz que não estou logado, depois redireciona. Caramba, ó Expresso!

Com o Expresso nos 4 euros por mês, ó Público, qual vai ser a resposta? Eu sei (pronto: eu considero) que o vosso produto vale mais, mas isto não é assim que funciona, na base do que alguns clientes acham.


6
Nunca como hoje circulou tanta informação falsa e tendenciosa entre um número tão elevado de pessoas e tão facilmente. Nunca como hoje os conteúdos políticos incluíram tanto antagonismo e ódio, o que polariza mais as posições e os debates e torna os compromissos mais difíceis de atingir.

Naturalmente, este problema não se coloca apenas no debate político. Estudos realizados noutros contextos (religião, por exemplo) têm demonstrado como a Internet (inadvertidamente) prejudica a qualidade da interacção humana em geral, porque permite o que é denominado como “ciberdesinibição”. Existe uma desconexão entre a forma como os nossos cérebros estão preparados para se conectar (com os outros em conversas e debates) e o tipo de interface que é usado nas interacções online. Esta falha permite, por exemplo, que a inibição que existe quando estamos face a face desapareça se estivermos online e que todo o tipo de emoções negativas e agressivas sejam manifestadas com muito mais facilidade. O facto de serem permitidas interacções anónimas agudiza, ainda mais, o problema.

(Excerto-aperitivo da análise assinada por Susana Salgado, investigadora de comunicação política do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, hoje no Público, integrado na série Ciências Sociais, uma parceria do jornal com o ICS. Recomendo vivamente.)



LIVRO DO DIA

The Panama Papers: Breaking the Story of How the Rich and Powerful Hide Their Money, de Frederik Obermaier e Bastian Obermayer.



OPINIÕES

Manuel Carvalho escreve sobre as presidenciais: Retrato de uma campanha com um elefante na sala. Público 👉

David Pontes também escreve sobre as eleições: O monstro vence-se nas urnas. Público 👉

Miguel Vale de Almeida escreve sobre racismo e Robin Diangelo: “Fragilidade Branca”. MiguelValeDeAlmeida 👉

Carlos Esperança escreve sobre a culpa: A Covid-19 E A Responsabilidade Individual. PonteEuropa 👉

Rui Bebiano escreve: A Democracia na América. ATerceiraNoite 👉

Vital Moreira escreve sobre voto e Constituição: Presidenciais 2021 (9): Questões Complexas Raramente Têm Solução Simples. CausaNossa 👉

Manuela Niza Ribeiro escreve sobre o povo e os trumps: Onde falhou, onde falha, a democracia? Visão 👉

José Manuel Pureza escreve sobre brutalidade e Washington Post: A brutalidade.Visão 👉

Joana Petiz escreve sobre a pandemia: Nove meses depois… está tudo pior. DiárioDeNotícias 👉

Gabriel Leite Mota escreve EUA: uma nação subdesenvolvida. Público 👉