Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de janeiro de 2021

Domingo, 17 de janeiro de 2021

Hoje: a má notícia da perda de autoridade do Estado português em contexto de pandemia e a boa notícia da continuidade do pragmatismo merkeliano na CDU alemã com a eleição de Armin Laschet. E é dia de correio dos leitores. E de um linklog particularmente sumarento, ora espreita lá no fim.


1
A perda de autoridade por parte de quem lidera o Estado é um dos mais preocupantes sinais da situação de pré-caos em que nos encontramos desde há alguns dias.

O Presidente da República e o Primeiro Ministro perderam o país — e esta perda é crítica na atual fase da pandemia, quando estamos no limiar do caos no sistema global de saúde. As pessoas não acatam mais instruções. As pessoas ficaram confusas e estão cansadas. As pessoas viraram as costas. São agora pouco mais que pasto para os incendiários das televisões e jornais.

Este problema político-social é grave sobretudo porque deixa sozinhos os técnicos que tentam, sem sucesso, travar a disseminação da Covid-19 e o seu impacto negativo nos serviços de saúde, que se salda neste janeiro de 2021 em 40% a 50% da mortalidade em Portugal, entre mortos diretos e indiretos.

Marcelo e Costa jogaram as fichas erradas nos momentos errados. Tenho uma lista de decisões discutíveis que gostava de lhes apresentar sob a forma de perguntas muito diretas. Mas este não é o tempo de cobrar a fatura política a Costa. Este tempo é de procurar ajudas. Tudo o que possa ajudar a minorar a situação. Tudo o que possa ajudar os médicos, os enfermeiros, a retaguarda dos hospitais, os decisores.

Como disse Marta Temido à saída do meu hospital (HGO): Estamos a pôr todos os meios a funcionar, mas há um limite. E estamos muito próximos do limite. Temos que nos esforçar mais em termos de comunidade para garantir que se param as cadeiras de transmissão, senão não há sistema de saúde que aguente”.

Com a autoridade desbaratada, como vão a Presidência e o Governo pedir mais esforços à comunidade?

Ler também David Pontes: Pandemia à beira do abismo // Público


2
Talvez não tenhas reparado que escrevi “sistema global de saúde”. Há muito que passámos o marco a partir do qual não tem utilidade diferenciar os sistemas público e privado no contexto da pandemia. A única utilidade, que era a esgrima ideológica partidária, ficou tão lá atrás que eu já nem a vejo. A pandemia exige um tipo de resposta e esforços que coloca à prova — à mesma prova — os dois ramais da saúde em Portugal.


3
E na Alemanha deu Armin Laschet! Dos pontos de vista português e europeu, a eleição para presidente da CDU do governador da região mais populosa da Alemanha, a Renânia do Norte-Vestefália é a melhor escolha. Laschet é um moderado e é tido por continuador do pragmatismo merkeliano, corrente que nos últimos e desafiantes 20 anos manteve a Alemanha como potência e ajudou à coesão da União Europeia.

Friedrich Merz, o“homem Goldman Sachs” do setor mais à direita dos democratas cristãos alemães, foi como se esperava o mais votado na primeira volta, mas perdeu na segunda.

Não deixamos o nosso país ser destruído por terroristas de extrema direita e incendiários” começou Armin Laschet a sua presidência da CDU. Começou bem.

Para o que mais nos interessa, que são as eleições das quais sairá o futuro chanceler alemão substituindo Angela Merkel, Laschet “fica agora mais perto de poder ser o candidato da CDU às legislativas de Setembro. Mas há meses que há dúvidas sobre isto, face à maior popularidade de políticos como o chefe do governo da Baviera, Markus Söder”, descreve no Público Maria João Guimarães.

Ler também Teresa de Sousa: Como viver sem Merkel // Público


4
Correio dos leitores

Muito correio respondido ontem, substituindo na prática o diário. Destaco três threads.

R.S. reagiu ao diário de quarta-feira com duas questões, uma delas a preocupação com os EUA pós-Trump. Será a administração Biden/Harris capaz de reunir o país?

Como lhe respondi, o problema é que os EUA estão desunidos por todos os lados. Os estados não estão alinhados e se Trump tivesse continuado era provável que Texas e Califórnia ou ambos fizessem força pela secessão. E pior: há uma guerra civil em curso. Já estava, Trump apenas meteu gasolina. Os EUA como estão são insustentáveis. Tenho dúvidas sobre a possibilidade de reformular aquele país. E não é uma questão de carisma. Obama disfarçou o problema e adiou o inevitável: o choque entre os valores WASP e os valores multiculturalistas numa sociedade em que os brancos têm vindo a perder poder político, restando apenas a alavancagem da violência armada. Não vejo como isto se resolva a bem dada a natureza humana.

C.N. discordou da minha atitude de não sacrificar os alunos ao confinamento. Não é uma atitude leviana: apresentei justificações da minha sensibilidade ao tema. E resumindo: situações extremas exigem respostas extremas. Uma certeza: não queria estar nos sapatos do Primeiro Ministro. (Ver sugestão de leitura no linklog)

S. acha que eu valorizo Ventura excessivamente. E que o Chega é um problema para a direita e eu desloquei-o indevidamente para a esquerda. A minha resposta convenceu-o de que a deslocação é legítima: o CDS, o PSD e o IL mostraram que não vêem o Chega como um problema mas como um veículo, pelo que o problema resvalou de facto para a esquerda.

Mas S. teve dois pontos pertinentes. O formato dos espetáculos televisivos conhecidos erradamente por “debates” favoreceu claramente Ventura, é o formato das televisões, é o show off a substituir o argumento substantivo. E sim, o PSD é o grande ausente destas eleições e talvez o maior derrotado. Isto é mais complexo de abordar porque Rio tem sido um estadista, não questionando gratuitamente as decisões do Governo em tempos de pandemia, talvez seja uma ausência calculada, mas é uma ausência e como tal é um facto político. Um ponto a descascar quando surgir oportunidade.



OPINIÕES

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