Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

20 de janeiro de 2021

Quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Hoje afirmo que — a confirmar-se a sondagem do dia — o candidato da extrema-direita é o grande derrotado das presidenciais, lembro que Rui Rio está vivo e aos pontapés e era bom que acertasse num alvo ou dois, explico porque não estou como toda a gente a pular de contente por ver Joe Biden na Casa Branca, e junto a minha à voz de Vital Moreira: nem mais um ministro infetado!

Antes, uma rectificação: no diário de ontem escrevi “legislativas” quando era óbvio no contexto da frase que me referia às autárquicas, a disputar algures no outono. Era tão óbvio no contexto que aposto que metade de vós não deu pela coisa e, como eu a reler, entendeu “autárquicas” ao ler “legislativas”…


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Faltam 4 dias para a conclusão das eleições para a Presidência da República. Sondagem do CESOP da Universidade Católica para a RTP e o Público divulgada ao fim do dia dá o resultado dentro do esperado: Marcelo vence à primeira e Ana Gomes fica no segundo lugar. (RTPPúblico)

Em relação à minha bola de cristal, Marcelo tem um desvio positivo de 2 pontos, Ana Gomes tem um desvio negativo de 1 ponto e o candidato da extrema-direita tem um desvio positivo de 2 pontos.

Parece-me claro que, a confirmar-se no domingo esta projeção, André Ventura será o grande derrotado desta campanha. Falha todas as metas menos uma. Colocou a fasquia elevada demais para a sua capacidade. Um soldado de infantaria armado em Napoleão. Por outro lado os seus 10% indiciam que a extrema-direita encontrou o seu limiar máximo em Portugal: o crescimento anti-democracia estabilizou nos últimos 7/8 meses depois da arrancada explosiva nos 4/6 meses anteriores.

A meta que não falhou: consolidou a extrema-direita como a bússola da televisão e imprensa, fazendo gato-sapato da agenda dos jornalistas.


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Passou despercebido no meio da confusão e desnorte em que vivemos. Rui Rio lançou um movimento visando reformas no sistema político e nos estatutos do partido. Rio colocou o PSD a trabalhar nas propostas: a “reforma da Justiça, que acho ser vital, a revisão constitucional, porque é tempo de fazer, e a reforma do sistema político, porque continua a ser muito importante”. Foram criadas as comissões cujo trabalho consiste em preparar as propostas de reformas nessas três áreas e nos estatutos. Nada de inesperado nas pessoas que integram as comissões: Paulo Mota Pinto, David Justino, Manuel Teixeira e Isaura Morais são os coordenadores de equipas tão cinzentas, históricas ou laranjas, como preferires, que eles.

Eu diria que Rio está a pretender lançar um sinal de reconciliação com o centro e com o país, depois da traição à pátria e à União Europeia perpetrada nos Açores com a coligação com a extrema direita anti-democrática. Espero que tenha sorte, embora tenha dúvidas: não se perdoa facilmente o que Rio fez e o silêncio sobre a campanha eleitoral não ajuda lá muito: ao eleitorado laranja não foram apresentados argumentos para não votarem no candidato da extrema-direita. E deviam.


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E porque espero, e até gostava, que Rio tivesse sorte? Fácil. Primeiro, como compensação pelo seu comportamento de estadista ao longo da pandemia. O PSD nunca fez parte do problema. Votou com seriedade tudo o que tinha diretamente a ver com a pandemia. A direção fez oposição com responsabilidade, deixando aos apparatchiks as farpas e flamas, como é normal.

Segundo, porque é vital para a democracia se aguentar nas canetas que haja uma alternativa no centro-direita na qual os eleitores possam confiar.

Agora: confio em Rio depois da novilhada açoreana? Bem: não sou marinheiro daquelas águas e quero um país diferente do que Rio quer. Dito isto: a minha (des)confiança nele não mexeu um milímetro. Rio habituou-me a esperar boas e más decisões que surgem quando e onde menos espero — e isto já vem dos tempos da Câmara do Porto.


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O mais provável é teres hoje visto com otimismo a tomada de posse de Joe Biden como 46º Presidente dos Estados Unidos da América. O mundo vê-se livre de Trump e regressa à Casa Branca um democrata, como não estar otimista? Junta-lhe a primeira vice-presidente (um pormenor significativo para um homem como eu: Kamala Harris jurou a bíblia nas mãos do marido, uma honra que nenhum americano tivera antes), junta-lhe uma administração muito bem pensada e escolhida para o propósito de reunificar as tribos estado-unidenses — como não ficar sorridentemente otimista?

Três razões. Uma: a Administração Biden não contraria, pelo contrário, a gerontocracia em que os EUA se tornaram, particularmente notório ao nível federal; não vejo que venha daí nada de bom.

Outra: as divisões sociais não nasceram do trumpismo, que apenas acentuou as fracturas raciais que nunca pararam de se agravar ao longo da história do jovem país; tenho as maiores dúvidas que boas intenções e políticas manietadas pelas forças que controlam o poder (e das quais Biden nunca se afastou) cheguem para inverter o divisionismo social.

Divisionismo que, bem vistas as coisas, é não só aceite como pretendido pelas maiorias: é pequeno e pouco poderoso o grupo de pessoas que vê as divisões raciais e de classe dos americanos como um problema. Pessoas mas também grupos empresariais olham para as divisões com bons olhos: das igrejas às armas, manter e incentivar o individualismo e o tribalismo dá mais lucro do que combatê-los.

E outra: à medida que perde o momento geopolítico, a liderança e o protagonismo, fraqueja a cola que tem mantido federados os 50 estados e aumentam as vozes e o volume do coro que fala na independência de estados como o Texas (que é uma parte do México e nenhuma fronteira foi eficaz em mais de 100 anos) e a Califórnia; esta tendência vem-se agravando e era precisa uma administração do calibre de três ou quatro Roosevelts para a inverter.


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Quantos mais ministros infetados e quantos mais confinamentos dos seus círculos de contactos próximos são necessários para ser adotada a única decisão decente, que é de vacinar os principais dirigentes políticos do Estado (PR, PM e ministros, Presidente e vice-presidentes da AR, pelo menos), como grupo de risco que são, pelas numerosas reuniões oficias e de trabalho presenciais em que têm de participar, muitas vezes em espaços fechados, ao serviço do Estado?”, pergunta Vital Moreira no Causa Nossa.

Eu junto a minha à voz de Vital Moreira. Pelo menos num anterior diário referi que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar nesse grupo a primeira remessa de vacinas é um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.



OPINIÕES

Francisco Seixas da Costa escreve sobre eleitorado e Belém: Bom senso e bom gosto. DuasOuTrêsCoisas 👉

Cristina Siza Vieira escreve sobre turismo e União Europeia: Viajar é preciso. DiárioDeNotícias 👉

Carlos Esperança também escreve sobre a campanha e o recandidato Marcelo: Eleições Presidenciais E Liberdades. PonteEuropa 👉

Pedro Santos Guerreiro está em Estado de choque. Expresso $

José Brissos-Lino escreve sobre A fraude do nacionalismo cristão. Visão 👉

Maria José da Silveira Núncio alto e bom som: Em nome da saúde, fechem as escolas!. Público 👉

Rui Tavares escreve: Uma ideia melhor do que votar num racista autoritário? Não votar nele. Público $