Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

23 de janeiro de 2021

Sábado, 23 de janeiro de 2021

Hoje advirto para o que aí vem a partir de segunda-feira: Marcelo 2.0, uma versão mais dura que o Marcelo 1.0. Também critico a gestão da pandemia por António Costa, mas vamos com calma nisso.


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A partir de segunda-feira o cenário político mudará substancialmente. Marcelo Rebelo de Sousa entra no segundo mandato como Presidente da República e poderá assumir um comportamento assaz diferente do que manteve grosso modo no primeiro mandato.

Os primeiros cinco anos em Belém deram-nos um Presidente católico, centrista e dialogante. Para os segundos cinco anos manter-se-á o Presidente católico. Tudo o mais cairá. Marcelo já deu sinais de estar farto da colagem ao Governo. E às 19 horas deste domingo cai a grande razão dessa colagem: o melhor matemático de popularidade dos políticos em exercício deixa de precisar dos votos dos eleitores do PS.

Não caiu bem o pormenor da queixa de Marcelo no episódio dos seus testes. Mas o pormenor deixa antever o seu estado de espírito. Num período: Marcelo está farto de Costa.

Este momento é o pretexto para Marcelo 2.0 se distanciar de Costa e do Marcelo 1.0, o tal que quis assumir parte da responsabilidade, e uma posição de liderança, da gestão da pandemia. O falhanço da dupla líder é clamoroso. A partir do Verão Marcelo e Costa deram vários maus exemplos e contribuíram para a confusão geral que se foi instalando. Na segunda-feira Marcelo tem o que Costa não terá tão cedo, se é que alguma vez terá: a oportunidade de refazer a sua imagem e ter uma nova atitude na pandemia.

Em concreto, o que espero de Marcelo 2.0?

Que se distancie das equipas de epidemiologistas e cientistas de dados que aconselham o Governo

Que tire o tapete à Ministra da Saúde.

Que faça esquecer a responsabilidade pelos maus exemplos que deu o Marcelo 1.0.

Não te quero confundir. Isto não é chega a semana e pimba!, o PR desata a fazer cenas. Vai é estar atento ao desenrolar da epidemia, aproveitando cada situação para se diferenciar de Costa e enfraquecê-lo sem dar demasiado nas vistas. Duvido que queira provocar rupturas durante esta fase horrível, que deverá durar até fins de março. Mas se puder…


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Não penses que estou a meter o ónus todo dos maus exemplos no Presidente. O Primeiro-Ministro não lhe ficou atrás. António Costa é um negociador pragmático para o bem e para o mal — desta vez foi para o mal.

O Governo mostrou-se mais permeável aos grupos da sociedade do que as circunstâncias aconselhavam. Costa ora deu o leme à economia, ora cedeu à opinião publicada, ora andou a mirar as hashtags, ora limpou as mãos com os cientistas. Ouvir, tudo bem. Guinar o automóvel para o lado de que grita mais alto, tudo mal.

Não é a sociedade que lidera a gestão de uma pandemia: é o Governo.


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Claro que há outra maneira de perspetivar o assunto. E, achando embora que Costa é o primeiro responsável pela condução ziguezagueante, pois é ele quem tem o volante nas mãos, estou com Pedro Marques Lopes: ”O governo passou de milagreiro a assassino; o alívio do Natal, aprovado por todas as forças políticas e sociais, passou a ser uma decisão criminosa que “eles” tomaram; quem berrava por esses meios de comunicação fora que não se podia afogar a economia e que estávamos a poupar alguns agora para matar muitos à fome no futuro exigem o confinamento total; há quem assegure que toda a gente sabia o que ia acontecer e ninguém se lembra de que havia opiniões científicas para todos os gostos”.

Como escreveu num artigo marcante publicado pelo Diário de Notícias, intitulado É connosco, “O fecho das escolas é um bom exemplo: não foi o governo a fechá-las, foram os pais e a opinião pública. O grande problema, nesta altura, é a sensação de que o governo, na questão de saúde pública, já não está no comando, e é infinitamente melhor ter um governo a errar do que vivermos ao sabor dos humores dos media, redes sociais e especialistas no que quer que seja. É absolutamente vital termos estabilidade política e que as decisões sejam tomadas pelo poder político. Somar uma crise política à sanitária e económica seria somar catástrofe à catástrofe.


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Claro que falar é fácil. Eu não queria estar nos sapatos de António Costa. E se fosse minha a decisão, mantinha-o como PM. Criticar medidas passadas é fácil. E criticar medidas numa situação de exceção como a pandemia Covid-19 é quase gratuito.


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No fundo quero o mesmo que toda a gente: que Costa reflita se pode continuar a governar um país completamente atarantado com uma sucessão de políticas cada vez mais inconsequentes e incoerentes. E se e como pode reganhar o respeito desse país para que os seus exemplos sejam seguidos.


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Frase do dia: “o Governo tem feito asneiras, mas é revoltante vê-lo impedido de decidir serenamente sob a pressão ininterrupta dos media e das redes sociais. A estirpe inglesa é um bom pretexto para calar os media e passar às outras medidas, que bem necessárias são” — António Dias Figueiredo.

Outra frase do dia: “o falhanço coletivo que nos trouxe até aqui é mais um rombo no deve e haver que as gerações mais novas têm para com um sistema político que os exclui e não os representa” — Susana Peralta



OPINIÕES

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Rui Bebiano escreve sobre os Estados Unidos e nós: O erro da obsessão antiamericana. ATerceiraNoite 👉

Bernardo Pires de Lima escreve sobre Joe Biden: O debate vital. DiárioDeNotícias 👉

Bárbara Reis escreve sobre números e Irlanda: A Irlanda é um paraíso fiscal (sim, os números mentem). Público 👉

Viriato Soromenho Marques escreve sobre a pandemia e após a pandemia: Na vertigem da desrazão. DiárioDeNotícias 👉

Pedro Gomes Sanches escreve sobre direita e PSD: Pelo fim do desassossego e da divisão da direita. Expresso 👉

Raquel Varela escreve sobre Jornalismo e Desinformação. RaquelVarela 👉

Pedro Ivo Carvalho escreve sobre pressão e Governo: E por que não um ministro covid? JornalDeNotícias 👉

Amílcar Correia escreve sobre migrantes: A xenofobia é um vírus. Público 👉