Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de janeiro de 2021

Domingo, 24 de janeiro de 2021

Hoje, o dia de eleições presidenciais, vai trazer novidades à política indígena. Afirma-se a reconfiguração da direita. Estamos todos carecas de levar com o “partido mau”, é tempo da falar do “partido bom”, o Iniciativa Liberal. Já o PSD está perdido, como se viu pelos comentadores da sua área e sobretudo por Rui Rio, que passou a noite a sacudir a batata quente. A direita tradicional está em negação, o que é ótimo para a direita em crescimento.

Nos EUA o alívio com a saída de Trump é tão grande que os americanos estão a dormir melhor! Eheheh, vê no linklog.

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As presidenciais tiveram três vitoriosos. Marcelo Rebelo de Sousa, claro. António Costa. E a representação, ainda em formação, de um grupo eleitoral novo ao centro-esquerda que se agrupou desta vez em Ana Gomes. Foi apoiada por dois partidos recentes, PAN e Livre, e creio que o novíssimo Volt terá também tido maior proximidade com ela.


1
Rui Rio foi o pior mas em geral os representantes da “direita social” — a designação com que se está a adocicar o PSD — cometeram um grave erro de análise. Percebe-se que queriam usar o momento mediático para vincar uma mensagem partidária. Mas está baseada num erro básico. Rio procurou passar a batata quente da direita — o anti-democrata e radical André Ventura — para a esquerda, do PS ao PCP e BE. Nomeadamente com a tirada de que Ventura ganhou ao PCP no Alentejo.

É fácil fazer a leitura apressada de que há transferência de voto do PCP para a extrema-direita. Mas basta olhar para o mapa dos resultados para verificar que quem alimentou Ventura no Alentejo foi o eleitorado do PSD. Marcelo Rebelo de Sousa cresceu no Alentejo com o voto do PS. O PCP manteve praticamente todos os seus votos. O BE perdeu alguma coisa, dentro da penalização geral. Todo o voto PS das últimas presidenciais (Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém) sustentou o resultado de Marcelo em Évora, por exemplo.


2
A recomposição da direita portuguesa não se fica pelo Chega. O partido Iniciativa Liberal tem feito um caminho praticamente simultâneo. Ambos nasceram dentro de um período de dois anos a tempo de disputar as eleições de 2019, ambos elegeram um deputado à Assembleia da República, ambos sangram os outros dois partidos da direita, ambos têm crescido em reconhecimento e em intenções de voto.

O IL tem tido uma subida menos acentuada, refletindo a diferença entre populismo e responsabilidade, bem como a diferença entre grunhice e educação. Por cada eleitor educado que o IL tirou ao CDS, o Chega tirou três eleitores arrivistas e topa-tudo ao PSD.

Mas o IL é um poço de equívocos. Muitos vêem nele uma movimentação tão ou mais perigosa para a democracia que o Chega. A hiper-valorização do capitalismo enquanto valor é a principal responsável por essa visão redutora. Os valores sociais que estão presentes no IL raramente ou nunca afloram no confronto de argumentos. Os mantras do “mercado”, do “capitalismo” e da meritocracia e a aversão, ódio mesmo, ao setor público conspurcam de tal forma as conversas que o liberalismo de costumes não tem a menor hipótese de comparecer na mesa.

Socorro-me da Wikipedia para estabelecer que as ideias e partidos que adotam o liberalismo social são considerados de centro. Assim, os liberais sociais encontram-se entre os mais fortes defensores dos direitos humanos e das liberdades civis, embora combinando esta vertente com o apoio a uma economia em que o estado desempenha essencialmente um papel de regulador e de garante do acesso de todos (independentemente da sua capacidade económica), aos serviços públicos que asseguram os direitos sociais considerados fundamentais. Todavia no liberalismo social, o estado não tem obrigatoriamente de ser o fornecedor do serviço público, tendo apenas de garantir que todos os cidadãos têm acesso a serviços públicos básicos, independentemente da sua capacidade económica.

Ora, o Iniciativa Liberal nasceu agrupando liberais puros e impuros. Estes dois grupos têm um passado pouco recomendável: ambos estiveram na fissão do PSD, empurrando o cabide sublimemente formado na juventude do partido para todas as ideologias, Pedro Passos Coelho, para a liderança, encomendando-lhe uma cartilha neo-liberal bem robusta. (A troika diz mata? Meninos do coro! Moles! Nós dizemos esfola! Nem mais um feriado para a corja!)

O neo-liberalismo — a desregulação selvagem somada à destruição de direitos do trabalho e, em países sem tradição liberal como Portugal, à canalização dos recursos públicos para a iniciativa privada — dominou os primeiros passos da geração de liberais impuros, empolgados com o empoderamento que a blogosfera lhes concedeu no início do século. Os que andaram com Passos ao colo nos media e chegaram ao tristemente célebre governo de desnorte nacional de Passos/Portas, entre ministros, secretários de Estado, gabinetes e comissões de serviço na Imprensa, eram mais thatcheristas e reaganistas que os próprios mãe e pai do neo-liberalismo.

Finda, com traumático estrondo, a irrepetível deriva neo-liberal do PSD, os que não se tinham comprometido demasiado na aventura foram à procura de nova saída. Como deviam. À sua espera de braços bem abertos estavam os liberais puros — tão puros que não se tinham metido no comboio de assalto ao PSD e à Assembleia da República. Outros nem sequer andaram alguma vez com o crachá da esfinge de Reagan nem com o pullover estampado com o icónico rosto de Thatcher a vermelho e azul.

Um pouco como o Bloco de Esquerda a reunir tribos com práticas divergentes, o partido Iniciativa Liberal reuniu tribos liberais com passados divergentes: liberais sociais misturados com neo-liberais duros. Ora, enquanto na direção (da fundação aos atuais corpos) pontificam os puros, o combate nas ruas tem estado a cargo dos impuros, muitos dos quais não conseguiram despir a tempo o fato-macaco passista. O grosso da imagem do partido resulta da atividade destes nas redes sociais. Os cartazes irreverentes não se sobrepõem, muito menos o discurso ponderado do presidente do partido e deputado à AR — e do candidato à Presidência da República, já agora.

Não admira, portanto, a confusão. E a desconfiança.

Para se afirmar o IL terá de ganhar a confiança tanto de seguidores como de adversários políticos.


3
É o título do mês: A gramática do amor. O artigo de Vítor Belanciano no Público relembra que as palavras são poder: tanto podem subjugar como empoderar. E segue pelo exemplo das relações amorosas. Recomendo!



OPINIÕES

Daniel Deusdado descreve na primeira pessoa o que é um funeral covid: “Como pode a catástrofe alguma vez vencer-nos?” DiárioDeNotícias 👉

Inês Cardoso escreve: Os políticos não são todos iguais. JornalDeNotícias 👉

Maria Luísa Cabral escreve sobre outro efeito da covid: A pobreza que nos esmaga. Esquerda 👉

Vital Moreira não vê inconstitucionalidade: Pandemia (47): Suspensão Das Atividades Escolares. CausaNossa 👉

Teresa de Sousa escreve sobre os EUA: “Para sarar é preciso lembrar”. Público $

Francisco Seixas da Costa evoca a memória de Baptista-Bastos para escrever sobre as eleições: Dias de presidenciais. DuasOuTrêsCoisas 👉

João Colaço escreve sobre escolas e Constituição da República Portuguesa: Proibição de aulas à distância: incompreensível, contraproducente e inconstitucional. Público 👉