Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de janeiro de 2021

Quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Hoje: e subitamente (ai somos tão naives que até dói) a UE tem um problema com o mercado das vacinas e Adolfo Mesquita Nunes quer vacinar o CDS contra a irrelevância. Boa sorte.


1
É um braço de ferro e é bom que a União Europeia não o perca — sob pena de enfraquecer o projeto de um bloco forte na geo-política mundial nas próximas décadas. A Europa enfrenta uma crise de identidade por causa da guerra do comércio de vacinas, titula o Politico. A análise de Jakob Hanke Vela sintetiza: “os eurocratas do comércio livre querem evitar o proteccionismo, mas enfrentam fortes ventos contrários”.

A Europa tem três dias para decidir o quão dura pretende ser numa luta global sobre a restrição das exportações de vacinas. Furiosos por as entregas de vacinas da AstraZeneca estarem aquém das expectativas, funcionários europeus estão a considerar a perspectiva de restrições à exportação de vacinas contra o coronavírus produzidas na UE, com Bruxelas a prometer um mecanismo “até ao final da semana”. A grande questão é saber até onde o mecanismo irá.

E ainda:


2
É fácil dizer “we could see it coming”, portanto eu digo: we could se it coming. E na verdade alguns de nós, os menos ingénuos, aguardavam pelo revés que caracteriza as relações com as empresas privadas. Estas, por definição, têm os seus interesses e o interesse público não é um deles. Quem paga adiantado é quase sempre mal servido.

Antigamente os contratos assinavam-se para serem cumpridos. Not anymore. É coisa que ficou no século XX. Hoje os contratos assinam-se para serem dirimidos nos tribunais. As contas contam mais que as honras. A AstraZeneca fez as suas contas e se ficar mais lucrativo pagar as custas e uma eventual penalidade por incumprimento, é esse o caminho que seguirá. Sem hesitar. Se o seu board for mesmo bom, então já negociou com os países que foram à procura de vacinas preços que incluem as custas com o incumprimento do contratado com a União.


3
Venha a máquina, nós cá estamos”. A frase foi cunhada na geração de jornalistas anterior à minha e marcou a minha vida: durante os anos formativos da minha espécie de carreira de três décadas de jornalista, no Diário Popular, a frase dominava a parede da Redação. Reportava-se a um marco importante da imprensa: uma nova e moderna rotativa muito potente, que era um desafio a tipógrafos e jornalistas.

Penso muito nela — e lá aflorou novamente com o plano de vacinação. Venham as vacinas, nós cá estamos. E Portugal está. Como os parceiros europeus, o ritmo de vacinação é lento nesta fase por culpa alheia. O gráfico abaixo dá nota da capacidade: podemos vacinar muito mais, assim chegassem as vacinas.

O quadro é de Jorge Gomes e está aqui. Os dados entretanto foram atualizados depois de eu fazer a imagem. Mas pouco: Portugal já administrou 278.413 vacinas. Estamos ligeiramente acima da média da UE, ver abaixo gráfico da Our World In Data


4
O CDS está numa luta pela sobrevivência e a direcção de Francisco Rodrigues dos Santos não será capaz de inverter o caminho da irrelevância política. Eis a bandeira que Adolfo Mesquita Nunes empunhou hoje ao entrar na guerra pela liderança do partido. Uma guerra que vinha sendo travada nos bastidores e que hoje é catapultada para o espaço público por intermédio do antigo secretário de Estado do Turismo.

O regresso de Adolfo Mesquita Nunes ao palco principal da política doméstica é uma boa notícia. Se o CDS não desaparecer, a direita social sai reforçada, o que ilegitima as aspirações de Rui Rio de se coligar com a extrema-direita.

A encruzilhada a que o CDS chegou tem quatro vias:

  1. extingue-se, esmagado pelos Chega e Iniciativa Liberal. Basta não fazer nada
  2. procura sobreviver como um parceiro credível para qualquer governo de centro, seja PSD ou mesmo PS. Basta eleger Adolfo Mesquita Nunes
  3. procura sobreviver na nova pele de partido de protesto contra “o socialismo que destrói o mundo”, encostado à extrema-direita. Basta eleger Nuno Melo
  4. outra que eu não sou capaz de ver ;)

5
Vamos ver as reações nos próximos dias e validar se o desafio de AMN ganha consistência. Caso não desperte o CDS, o que é bem possível dado o adiantado estado de desidratração do partido, então vai seguir a primeira via. Em termos de mercado, é uma boa aposta meter as fichas em que AMN não vingue, porque o CDS católico conservador é incapaz de aceitar um homem gay assumido, olha o ultraje.

Se assim for, o CDS splita: para AMN o caminho é o IL, enquanto o Chega já tem impressos os cartões de associados para Francisco Manuel dos Santos e Nuno Melo. Este, aliás, tem lá um cargo à espera ao lado, um pouco abaixo, de AV, só não sei qual. Talvez candidato ao PE, who knows.


6
Isto lembra-me que ando há dias com uma comichão na omoplata dos comentadores e articulistas que têm escrito e falado sobre a reconfiguração da direita. Mas deixo-a para coçar amanhã, que este diário já vai bem cheio.

...

OPINIÕES

Raquel Ribeiro entende que o espaço mediático fecha-se fomentando o medo e a desconfiança: A cacofonia do medo. Na contacto

João Varandas Fernandes escreve sobre saúde em Portugal: Num campeonato de sobrevivência não há espaço para preconceitos ideológicos. No Público

Pedro Melvill Araújo escreve sobre os especialistas em generalidades: A razão de Darwin. No Diário de Notícias

Constança Troni escreve sobre a pandemia: Empatia em tempos de Pandemia? A Pandemia dividiu para reinar. No Capital Magazine

Jorge Costa escreve sobre governo e Bloco: Um janeiro para não esquecer. No Esquerda

Nuno Severiano Teixeira escreve sobre Navalny: A voz alternativa da Rússia. No Público

Francisco Seixas da Costa escreve sobre a sua simpatia para com estrangeiros (de que eu partilho): Um outro país que aí existe. Em Duas ou Três Coisas