Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de janeiro de 2021

Quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Hoje no cardápio: heróis da net contra hedge funds para animar o palato, segue-se um primeiro prato com a irrelevância do IL para os comentaristas instalados, depois um segundo prato com a importância política crescente do PAN e para a sobremesa o combate incessante entre BE e PCP, com uma importante vitória deste. Ao café o correio dos leitores a terminar as opiniões dos outros (hoje não há linklog).


1
É a notícia mundial não-covid da semana: um movimento de massas iniciado no Reddit fez grande mossa na Bolsa de Nova Iorque, provocando prejuízos de milhares de milhões a empresas de especulação financeira. Em traços simples: alguns hedge funds começaram a apostar em vendas a descoberto (short, na gíria) contra a GameStop e membros do fórum Wall Street Bets no Reddit desataram a comprá-las, levando à valorização das acções e consequentemente forçando os fundos a cobrir as compras. Com isso os iniciadores do movimento, seguidos por milhões em todo o mundo, ganharam pequenas fortunas e levaram um dos fundos a perder 3.000 milhões de dólares.

O acontecimento foi muito celebrado. O bilionário americano Mark Cuban chegou a tuitar que adorava o que se estava a passar.

Deixo-te boas pistas:


2
Uma situação que me causou alguma espécie. Em todas as análises à correlação de forças saída das presidenciais, futuros comportamentos dos partidos de direita e cenários de coligações que li na imprensa e ouvi na televisão, os partidos mencionados eram somente o PSD e o CDS, pelos incumbentes, e o Chega pelos recém-chegados. O Iniciativa Liberal nunca entrou nessas contas.

É como se o IL não contasse para os comentaristas do costume.

Já tínhamos visto isto suceder quando o PAN chegou à cena. Durante quatro anos foi olimpicamente ignorado pelos analistas. E mesmo agora continua largamente fora das cogitações, apesar de se ter tornado importante para as possibilidades de alinhamentos e/ou acordos na Assembleia visando a governação.

É previsível que o IL venha a ter três a cinco deputados na próxima legislatura. É previsível que o PAN mantenha um grupo parlamentar com três a seis deputados.

Como é que se pode ignorar o contributo de seis a 12 deputados no centro do Parlamento? Para mais quando é um facto que com a fragmentação da representação partidária a governação passa cada vez mais por acordos pragmáticos e negociações com “parceiros possíveis”?

O que impede o PSD de procurar negociar apoio nas suas imediações (IL e, um pouco mais remoto mas possível, PAN) em vez de se virar para a extrema-direita? Porque não existem estes cenários?

Todos os cenários são impossíveis até ao dia em que são negociados. Não havia nada mais impossível do que um governo com PS e PCP do mesmo lado, e no entanto aconteceu.


3
Por falar em PAN: a importância política deste partido pode aumentar na próxima legislatura. Se mantiver, ou crescer, o seu número de deputados, como é previsível, a matemática para um governo do PS passará eu diria forçosamente pelo PAN.

Nota que estou a levar em consideração apenas o pragmatismo numérico, o número de votos no hemiciclo. Pessoalmente, gostaria que qualquer governo — PS ou PSD que fosse — negociasse a inclusão de propostas do PAN: seria absolutamente um melhor governo.


4
Secundariamente, há outro contributo para o reforço de importância do PAN: a quebra do Bloco de Esquerda. Na matemática parlamentar o PS pode vir a dispensar o BE.

A tendência de queda vinha de antes do seppuku com o Orçamento de Estado. E a campanha eleitoral para as presidenciais trouxe uma inflexão no resultado da guerra permanente, subterrânea, que BE e PCP vêm travando há duas décadas. Depois de sucessivos rounds a levar tareia e a perder aos pontos, o PCP venceu um round importante.

Um combate a seguir nas próximas autárquicas, um território favorável ao PCP e desfavorável ao BE.


5
Correio dos leitores

Começo por S.M., que reconhecerá o ponto sobre a quebra do BE como uma extensão da resposta ao seu email. S.M. continua a colocar o Livre no mapa, eu não; como lhe respondi, concordo que continua no mapa, mas pode não passar de wishful thinking meu, pelo tenho deixado de lado. Provavelmente continuarei a ser eleitor do Livre, mas tenho alternativas no espaço do centro-esquerda e dos desalinhados com consciência.

V.M. concordou comigo sobre o resultado das presidenciais vir arrefecer eventuais ímpetos de Marcelo para colocar pressão em Costa e no PS. Mas adiantou uma leitura que é nova, pelo menos para mim: o coro de contestação a Rui Rio está a aumentar de volume e a alargar em quantidade. Se alguma dessas vozes for da vontade de Marcelo, Costa que se prepare porque vai ter uma vida difícil, agora se não for do agrado de Marcelo, Costa tem o caminho livre e o PSD está devidamente arrumado.



OPINIÕES

Ricardo Simões Ferreira escreve: Austrália e Google em luta e a UE à espera de ver para que lado cai a fruta. No Diário de Notícias

João Ramos de Almeida escreve sobre análises à transferência de votos nas presidenciais: O diabo anda à solta. Nos Ladrões de bicicletas

Vitalino José Santos escreve sobre os problemas das empresas no pós-pandemia: Apoio governamental sem regulamentação. No Sinal aberto

Mafalda Anjos escreve sobre pessoas classe média que deixaram de votar CDS e PSD: Ventura, a Maria da Avenida e a voz do desalento. Na Visão

António-Pedro Vasconcelos escreve sobre direita e Rui Rio: A direita em estado de alerta! No Público

Joana Petiz apela: Chega de navegar à vista. No Diário de Notícias

André Fontes escreve sobre estupidez e o efeito Dunning-Kruger: Os 7 hábitos de pessoas altamente estúpidas. No Expresso