Segunda-feira, 3 de maio de 2021Hoje revelo tudo sobre a estagnação da direita portuguesa. Nem 1 ponto percentual conquistou em seis anos. 1 para amostra. E o Chega? No mês de toda a excitação com a corrupção, Sócrates e Ivo Rosa, Ventura perdeu 15% do apoio nas ruas. Que a Imprensa o console. E a Rio. Voltemos às sondagens de intenções de voto e ao seu tratamento noticioso. Começando pelo princípio: não te deixes impressionar nem assustar pela imprensa pois o PSD não recuperou coisa nenhuma nas intenções de voto. Se és simpatizante, não embandeires em arco: não importa a quantidade e qualidade de tangas que te batam, o teu partido está em muito maus lençóis eleitorais.A verdade dos números, que os teus olhos poderão verificar no site da CNE e no site do DN, é esta: a direita coligada a dois (PSD+CDS) venceu eleições em 2015 com 36,86% dos votos, desligada em quatro (PSD+CDS+IL+CH) perdeu as eleições em 2019 com 34,56% dos votos e hoje vale exatamente 36,8% — número curioso, é igual ao de há 6 anos, igualzinho que até dói.Olha aí a linha azul clara no gráfico ponderado dos últimos três anos:Se não tivéssemos dezenas de exemplos diários, bastava a forma como a imprensa portuguesa titula as sondagens para perceber, preto no branco e sem margem alguma para dúvidas, por que batem os corações dos seus editores e diretores.A escolha do facto mais saliente de uma sondagem para fazer o título é uma questão de opinião. Não é uma ciência exata. Qualquer título é legítimo, defender-se-á o editor em causa — se se dignar dar uma resposta, isto é, porque nada nem ninguém o obriga.Eu, perante os mesmos dados, poderia titular algo como “PSD continua a não sair da cepa torta: teria hoje menos votos que há 2 anos”. Seria igualmente válida a escolha, e simétrica em termos de narrativa. ou seja: seria um tão mau título como o título do DN de hoje: “PSD recupera”.Tudo bem. Esse não é o ponto. O ponto é verificar a sequência de títulos sobre as sondagens. Se o fizeres ao longo dos últimos anos verás muito clara a tendência: PSD e Chega no título com palavras positivas, PS no título com palavras negativas, outros partidos não existem, ponto. Os números e factos são sempre alinhados em função desse paradigma e mais nenhum. E são torcidos para encaixar sempre na mesma história — a história da “recuperação” do PSD, que é uma mentira, não tenho outra palavra para isto.Poderás argumentar: da sondagem anterior para esta, o PSD recuperou alguns pontos (2,5%). Eu encolho os ombros: pois foi, vê lá tu. E…?Se por acaso leres a análise dos resultados, de Rafael Barbosa, ficarás a ganhar: avalia bem os números e faz uma peça que não se pode considerar inclinada. O problema é o que denunciam as escolhas dos destaques — que são o que passa para o grosso da audiência e a vai formatar através do Facebook e do Twitter, onde só os títulos contam. E a escolha é invariavelmente a insistência na narrativa salvífica do PSD e da recomposição da direita. Nunca se passa para a audiência o problema, que é dramático para a direita em geral e o PSD em particular, de a meio da legislatura, depois de seis anos seis de governação do PS (em dois executivos minoritários!), a variação positiva da direita coligada não sair sequer da margem de erro das sondagens. Há seis anos seis que a direita, não importa se a 1, se a 2, se a 4 líderes, vale exatamente o mesmo, à casa decimal.