Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de junho de 2021

Terça-feira, 1 de junho de 2021

Hoje escrevo sobre os velhos. Uma palavra que evoca amor, ternura, mas também desagrado, silêncio, vazio.

O envelhecimento é um assunto que, como compreendes, me toca. Dentro de dias faço 61 anos. Faltam quatro para entrar para um grupo estatístico especial: os velhos.

O que tem de especial?, estás aí tu a perguntar. Calma. Estou só a pensar como a definição do grupo mudou ao longo da minha vida. Quando eu era miúdo, as pessoas velhas à minha volta qualificavam-se mais cedo, aos 60, e depois quase desapareciam da vista. O arquétipo era o velho que ficava em casa a ouvir rádio e ver televisão, depois de manhã ter ido ao mercado, e contava os dias até domingo, dia de receber os telefonemas dos filhos. À noite, depois das 20:00, quando os impulsos (medida em que eram taxadas as telecomunicações) alargavam de 8 para 12 segundos, podia-se falar mais tempo.

O velho tinha, ou aguardava, uma reforma baixa, que esticava para os medicamentos e a alimentação. Os tempos livres eram passados a jogar às cartas com os amigos nos bancos dos jardins, eles, e em casa fechadas a ver o tempo passar pelas malhas do croché, elas. Isto, claro, é um arquétipo e corresponde substancialmente à classe média-baixa que predominava (e ainda predomina, mas com outras características) no Portugal do fascismo. Noutras classes havia pequenas variações — mas no essencial a grande maioria dos velhos estava fora de circulação.

Três palavras para situar a questão: não havia televendas. Os velhos deixavam de ter um papel enquanto consumidores.

Hoje não é assim. Pelo menos não está assim. Os velhos já contam para a economia enquanto consumidores não apenas de lares e ortopedia, mas também como clientes da restauração, das viagens e das artes e lazer. As suas poupanças e as suas reformas não ficam a apanhar pó nas contas bancárias à espera das partilhas, oh não não: são o mais possível sugadas pela economia do dia a dia.

Contam também politicamente. Votam. São, aliás, um grupo eleitoral que nenhum partido pode negligenciar: nas primeiras eleições da democracia portuguesa, em 1965 para a Assembleia Constituinte, dos 91% de portugueses que votaram menos de 10% tinham 65 anos ou mais; nas autárquicas de setembro próximo os velhos serão 22% dos eleitores.

Mas continuam a ser vistos de uma forma, digamos, secundária. Dentro de quatro anos tornar-me-ei quase invisível. O que tem o seu lado bom: depois de 30 anos como jornalista, os últimos cinco têm-me sabido muito bem precisamente por ter desaparecido da pressão da exposição mediática. Mas vai ser uma invisibilidade diferente, com muitas arestas más.

Isto tudo a propósito do artigo de Teresa de Sousa ontem no Público, intitulado precisamente “Os velhos” (link fechado). É uma reação sobretudo ao plano de vacinação e a forma como (não) lidou com os velhos. Mas tem mais algumas ideias que valem a pena. Uma citação para abrir o apetite:

Por mim, o que sei é que o meu filho de quarenta e poucos terá as duas doses mais ou mesmo ao mesmo tempo que eu. A minha filha mais nova um pouco depois. A minha filha mais velha, a viver nos Estados Unidos, recebeu as duas doses em Abril e a minha neta mais velha, que também lá vive e que tem 13 anos, estará completamente vacinada um mês antes da avó. Não me estou a queixar. Estou apenas a dizer que se continua a pensar pouco nos “velhos”. Ou melhor, que o conceito de “velhos”, em Portugal, é distorcido e é ofensivo. E isso não é certamente um bom indicador da “resiliência” — como agora se diz para quase tudo — de uma sociedade que se quer desenvolvida

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