Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de agosto de 2011

A desigualdade de rendimentos é inimiga da economia de mercado e da sociedade de consumo

O João Caetano Dias acha que eu leio os livros errados. Acusa-me de ser um perigoso socialista — no sentido profundo, económico, do termo, não está apenas a apontar-me uma filiação partidária (que seria errada, embora tal facto fosse, para ele, rigorosamente irrelevante) ou uma inclinação ideológica (seria outro equívoco deliberado).

Não tenho ilusões. Os neoliberais só na aparência — ou de passagem, e na medida em que der jeito — defendem a economia de mercado. O que eles defendem é a abolição da civilização ocidental e a instituição de uma sociedade desigual e que consagraria o status quo atual como um “vencedor” natural da “corrida”.

Chegámos a uma encruzilhada da história em que, ironicamente, são os críticos da economia de mercado os únicos capazes de a salvar. Capazes e interessados. A única solução para a sobrevivência da economia de mercado passa por renovar os seus métodos de redistribuição do produto gerado. Nova legislação fiscal que corresponda às necessidades da economia moderna, cada vez mais capital intensive e onde o trabalho perde valor por força da combinação da tecnologia com a deslocalização.

Não se trata tanto de mais regulação — um anátema para os neoliberais, com a capacidade de os levar ao paroxismo e à execução do equivalente às danças rituais ancestrais para afastar os espíritos — mas de melhor regulação, seja muita ou pouca. O problema dos Estados não é o seu tamanho mas sim, graças em parte às suas ineficácias, terem deixado de dar resposta à complexidade crescente da economia. E sobretudo à conjugação das Três Grandes Forças num alinhamento sem precedentes na História: demografia, globalização e tecnologia.

Para o João Caetano Dias, um excerto elucidativo de um livro que talvez lhe fizesse bem ler (tradução rápida e amadora):

“O extremar da desigualdade de rendimentos é geralmente apresentado como um problema social ou uma questão de justiça básica. Apesar de poder ser essas duas coisas, é também — e criticamente — um problema matemático em termos da viabilidade do mercado de massas. Quando o poder de compra é retirado a milhares de consumidores médios para se concentrar num indivíduo rico, esse poder de compra é efetivamente esterilizado: deixa de desempenhar o vibrante papel de gerar procura de produtos e serviços. Como temos visto, em última análise isto fará secar o “rio” de poder de compra em que se baseia o mercado”.

Martin Ford em The Lights in the Tunnel: Automation, Accelerating Technology and the Economy of the Future.

E ainda um “piqueno” brinde a bem das virtualidades do debate sem preconceitos, João. Aqui.

(Foto: Upper Provo River before sundown, Colorado, EUA. Autor:owenxu)