Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

3 de setembro de 2008

A notícia da morte de Steve Jobs e os obituários no jornalismo

A notícia na passada quarta-feira da morte de Steve Jobs, dada prematuramente pelo canal financeiro Bloomberg, levanta uma série muito interessante de questões sobre o exercício do jornalismo online e em particular sobre os obituários.

[ Nota: artigo publicado originalmente na edição multimedia do Expresso, reproduzido para efeitos do meu arquivo pessoal.]

É prática corrente nas redacções manter mais ou menos actualizadas biografias das pessoas cuja morte será notícia importante. Steve Jobs é uma dessas pessoas, e não apenas para um canal financeiro. Jobs já se safou de um cancro no pâncreas, há poucos anos, e está muito magro, tendo sido levantadas algumas suspeitas sobre o seu estado de saúde no início do ano.

O que aconteceu com a Bloomberg foi um azar: ao terminar uma actualização, ou revisão, o editor carregou no botão errado, libertando um rascunho para o fluxo de publicação de notícias — e assim “matou” prematuramente o CEO da Apple, dando origem a uma série de comentários e blogs entre o humor e a sordidez.

Um azar destes pode acontecer a qualquer meio. A Bloomberg de imediato se retratou, publicando:

  Story Referencing Apple Was Sent in Error by Bloomberg News
  Aug. 27 (Bloomberg) — An incomplete story referencing Apple
  Inc. was inadvertently published by Bloomberg News at 4:27 p.m.
  New York time today. The item was never meant for publication and
  has been retracted.
  — Editor: Joe Winski, Cesca Antonelli

A Gawker fez um bom trabalho sobre isto, publicando o obituário (a imagem que reproduzo foi tirada de lá).

Já Steve Yelvington pretextualiza: são os obituários obsoletos?

O obituário passou de peça essencial no jornalismo localizado do século XIX a dispensável na era do audiovisual. Depois foi recuperado por muitos jornais modernos, na função de registo “para a História” de figuras proeminentes.

Yelvington recorda que “in the print world, com raras excepções, a morte de alguém era a única ocasião que justificava a publicação da história da sua vida“. A Internet veio mudar a forma como lidamos com o tempo, tal como colapsou o espaço. Como recorda Yevington, tudo está disponível AGORA. Sem as limitações tradicionais do “print”, isto é, o antigo está tão disponível agora como o novo.

Daí o lição número 1: “hoje os jornalistas têm de aprender a escrever não apenas no registo episódico (as notícias e reportagens são episódios, retratos que fixam um determinado momento do fluxo) mas também num formato enciclopédico. A história da vida de Steve Jobs devia ser um documento vivo“.

Na verdade, é. Ou melhor: tal documento existe, e em formato de entrada de enciclopédia. Está na Wikipedia: em português o artigo é relativamente bom e em inglês é mesmo bom.

No punhado de cursos que ministrei, tanto a futuros jornalistas como a simples bloggers, sempre bati na tecla do wiki como ferramenta e da Wikipedia como local para publicar, pelas melhores razões. Pelo exercício de escrita tanto quanto pelo contributo que, sendo gratuito, acarreta o seu quinhao de prestígio (e até de currículo, o que é essencial para um candidato ou jovem à procura de emprego).

Mas do que aqui se trata é, também, de trazer o formato enciclopédia (ou gigantesco banco de dados formatado, se preferirem…) para dentro da publicação.

Todo o jornal local deve envolver recursos online. Às coberturas de acontecimentos com sequência podem ser adicionadas apresentações que coloquem na perspectiva cronológica os últimos desenvolvimentos“, preconiza Yelvington.

É aqui que uma edição online se distingue brutalmente de uma edição em papel, audio ou audiovisual. A peça online continua viva, não é substituída no fluxo pela próxima. O jornal vai forrar caixotes, as peças radiofónicas e televisivas desaparecem para destino desconhecido (hoje reaparecem… na Internet!, onde estão lado a lado com os “directos”) mas os artigos publicados na web permanecem publicados na web, pesquisáveis, encontráveis, hiperligados na teia. Editáveis e actualizáveis como se fossem mini-jornais daquele assunto em concreto.

Este é um dos “saltos” a dar pelo jornalista ligado, como observa Yelvington — um homem nascido ao lado das rotativas de chumbo e que quer manter-se activo por aqui.