Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de maio de 2008

A petição contra o acordo ortográfico e o costumeiro complexo de Iznogoud

Estive a ler a petição contra o acordo ortográfico, que regista uma boa adesão: mais de 28.000 subscritores no momento em que lá estive. As primeiras 17.300 assinaturas foram entregues em 8/5/2008 a S. Ex.ª o Senhor Presidente da Assembleia da República e calcula-se que nova fornada deverá seguir-se brevemente.

Parabéns pelo sucesso.

Dados os parabéns, recomendo aos leitores de C! a leitura atenta do enunciado das “razões” “contra” o acordo ortográfico. Eu espremi a coisa e conclui que não passa do complexo de Iznogoud: este acordo não presta porque não foi feito pelos signatários e subscritores, que preferiam, evidentemente, um acordo que seguisse os seus próprios princípios para a alteração da língua por decreto. Quero ser califa no lugar do califa, portanto.

Se alguém encontrar lá um argumento concreto e definido que seja, levante a mão.

Texto compridito, eis os subtítulos:

Que delícia: a identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros

E os erros? No ponto 1, o aviltamento inaceitável é o de um número considerável de intelectuais subscrever aquele ponto, e em particular a espantosa frase onde se culpabilizam directamente os meios de comunicação social e o Estado por a língua se ter — na opinião de tão criteriosos signatários — “degradado”. Mas devo dizer que gostei da pompa da tirada sobre a “identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros” — não significa nada para a matéria em causa mas fica bem num documento destes, de e para Sexas e Vexas.

No ponto 2 lá se deixa escapar o óbvio: estamos contra este acordo porque não foi feito “pelos nossos”, que são obviamente melhores — quanto mais não seja por direitos de nascimento acumulados, ou não, com a graça divina — que os “outros”, essas irrelevâncias insignificantes que fizeram a coisa orquestrados pelos obscuros interesses de * (sabe-se lá quem, tanto faz, em teorias da conspiração metade do gozo está no sublime asterisco).

A falsidade deste ponto é transmitir a ideia de que não houve “consulta” e “debate”. Não tem havido outra coisa, se bem tenho lido. Não tenho a certeza que os meus próprios textos sobre o assunto tenham sido lidos por suas excelências, mas eu debati e consultei longamente nos últimos 5 anos, via blogosfera, as “questões” do acordo. Estiveram fora, foi?

No ponto 3 zurzem-se inexplicavelmente nada menos que 2 ministérios 2, tentando envolver “nisto” o Governo — a leitura da lista de proponentes apazigua a desconfiança que logo assoma no ponto 3.

O ponto 4 é um gozo puro. Vi-me grego para entender como é que num parágrafo se classifica de inaceitável a supressão “da” acentuação (tipo, foderam os acentos todos, méne!) e “das” “impropriamente” chamadas consoantes “mudas” e se abre o parágrafo seguinte a dizer que não faz sentido o carácter facultativo que se prevê no texto do acordo.

Depois distendi-me, ri — e tudo voltou ao normal. Efectivamente, não se percebe o carácter facultativo de uma obrigação. E ainda menos a obrigatoriedade do que é facultativo.

a língua muda sozinha

Que me perdoem tão ilustres promotores e seus não menos ilustres signatários, mas penso que não estão a ver bem o filme. A língua muda sozinha e nenhum acordo consegue alterar isso. Nem este. Mas este não tem nenhum objectivo idealista. É um acordo pragmático e realista e segue o fito da questão da universalidade do português no século em que as línguas ibéricas assumirão um protagonismo mundial pela segunda vez na História, depois da hegemonia do século XV.

Eu na verdade fico um bocado sem saber o que pensar destas pessoas que são contra o acordo ortográfico. Quer dizer, percebo as motivações políticas que estão por detrás de uma parte, adivinho a existência das motivações pessoalíssimas de outra parte e há familiares meus que são contra e tenho debatido com eles e acabamos nas nossas posições, o que já não é mau.

Vamos lá ver. Os acordos ortográficos nada têm a ver com a língua em si própria, não se destinam a defender ou atacar versões, não é o Português contra o Brasileiro. Quem pretende fazer acordos ortográficos nunca é a Academia (mesmo que seja chamada depois a defini-los) e muito menos os intelectuais, artistas, escritores, jornalistas, etc etc etc.

Os acordos ortográficos não são oriundos de quem escreve e fala a língua, nem a eles se destinam.

Os acordos ortográficos não são, sequer, caprichos de burocratas (ou pelo menos este não é).

Desculpem os românticos como Manuel Alegre e os apaixonados como Vasco Graça Moura este reality check: os acordos ortográficos são acordos substantivamente políticos, destilados dos aspectos económicos da língua, e este acordo ortográfico contra o qual assinaram é um acordo oportuno e quanto mais depressa melhor — como de resto defende estoutra petição que tem tido muito menos saída, o que faz todo o sentido, nunca um português se mobiliza a favor, era só o que faltava, oressa!

a língua é um instrumento de poder

Em entrevista recente ao Expresso, Simonetta da Luz Afonso, presidente do Instituto Camões, refere que “a língua é um instrumento de poder” (foi título). Recomendo em absoluto a leitura, mas sempre adianto ser fundamental para a questão do acordo isto: “O valor económico da língua decorre do valor estratégico e o nosso é multiplicado por oito porque somos oito países com oito culturas em cinco continentes», declara ainda a presidente do IC. Por outro lado, o facto do Brasil ter optado o espanhol como primeira língua estrangeira e, reciprocamente, outros países da América Latina estarem a fazer do português a primeira língua estrangeira (Argentina, Uruguai, Venezuela) vai criando uma mancha de línguas ibéricas com muita força. «E este mercado não é despiciendo — o mundo de negócios anda à volta disto e a língua é fundamental para a comunicação».

Sou conservador e desobediente

Já há um ano, num texto memorável publicado no Público (A mãi e o pae da ortographia portugueza, cópia no Ciberdúvidas), José Vitor Malheiros esclarecia tudo o que havia para esclarecer. Não resisto a sublinhar aqui as passagens com que mais me identifico: “sou conservador, sem exageros, em termos de língua — o que quer dizer que gosto de escrever hoje como aprendi ontem. Gosto de ortografia e tenho prazer em espreitar a etimologia escondida por baixo, mas não é por escrever água que deixo de saber que vem da mesma aqua de onde vem o esqui aquático.

Haverá no acordo coisas que me enfurecerão e que nunca seguirei, com a mesma desobediência civil que faz aos lisboetas dizer Campo Santana e Largo da Misericórdia em vez de Campo dos Mártires da Pátria ou Largo Trindade Coelho. Outras que me enfurecerão e acabarei por seguir, às vezes com dúvidas semânticas (um afeto sem c parece mais afectado que afectuoso, mas será?) e outras variantes de comportamento.

Uma coisa é certa: sempre que ouço um debate entre acordonistas e contracordistas sinto-me tentado a aderir amanhã ao acordo, de tão ocamente nacionalistas (passe o pleonasmo) me parecem os argumentos dos últimos: o que os choca, em última análise, é que os nossos filhos vão escrever o português de uma forma diferente da nossa. A mim chocar-me-ia mais que escrevessem igual.”

Querem problemas reais para peticionar? Sugiro a vossa subjugação ao corrector ortográfico

Uso ainda o texto de José Vítor Malheiros para a estocada final. Temo bem mais os efeitos nefastos do uso negligente e desatento (ou seja: do uso por 99% das pessoas) do corrector ortográfico a marcar a descomunicação entre lusógrafos do que os acordos, bons (como este me parece ser) ou maus.

“O corrector ortográfico com que escrevo (quando for corretor será «com quem» escrevo?) regista 18 — dezoito — 18 variantes de inglês! Inglês da Austrália, Belize, Canadá, Caraíbas, Hong Kong, Índia, Indonésia, Irlanda, Jamaica, Malásia, Nova Zelândia, Filipinas, África do Sul, Trinidad e Tobago, Reino Unido, EUA e Zimbabwe. E 16 variantes de árabe, 15 de francês, 20 de espanhol e (espanto) 9 variantes de finlandês. Uma de albanês e basco. De português há duas. As 9 variantes de finlandês são certamente as razões dos problemas de afirmação desta língua e a única variante de basco explica a sua pujante irradiação, mas… como se explicam os outros casos?”

Não se explicam. Nem interessa: vinha estragar tudo.

Vítor Malheiros teve este seu texto “correctado” uma vez mal e à segunda deixou passar. De propósito. Para ilustrar a evolução da língua, umas evoluções aceitamos melhor, outras evoluções aceitamos pior.

E se incontáveis milhões de brasileiros nasceram, viveram, comunicaram e o Brasil é penta-campeão do mundo aprendendo que fato também é facto, os “vindouros” portugueses do tal legado têm células a menos e não serão capazes de viver assim, diminuídos do “c” dos seus pais — que, pobres almas que somos, vivemos mortificados, espoliados que fomos, do “ph” dos nossos próprios pais?

Poupem-me.