Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de março de 2009

A "praga" da Internet vitima agora os informáticos

A primeira vítima da partilha digital foi a indústria musical, já lá vai uma década. O cinema temeu o pior e, talvez por ter reagido cedo, escapou. A seguir foram os jornais a declararem-se vítimas da Internet, essa “praga” que supostamente destrói a capacidade de lucro das indústrias culturais.

A próxima vítima chama-se indústria da informática. (Texto de arquivo; primeira versão publicada na semana passada no Expresso Multimedia).

Mais propriamente, os técnicos e programadores. Os despedimentos na indústria informática dispararam. Despede-se mais que nos meios de comunicação social, só que, ao contrário deste sector, há algum novo emprego. Da Microsoft à IBM à Google passando pela Texas Instruments, Philips, Cisco, Pioneer e Dell, nos dois últimos meses foi um corropio de despedimentos (um quadro possível aqui).

Sub-noticiados, em função do seu menor apelo mediático.

É claro que “a crise” é apontada como a grande responsável por este ajustamento. Mas olhar assim para o problema equivale a ter a mesma atitude que custou o domínio do mercado mundial da música às antigas editoras majors: ignorar os avisos, como faz a avestruz, não é boa ideia.

Na verdade, à medida que os serviços informáticos se espalham pela Internet, os programadores estão cada vez mais no mesmo barco que os outros produtores de conteúdos culturais e de entretenimento. Um barco chamado “de onde virá o próximo salário”.

A praga da Internet decorre do seu extraordinário poder produtivo enquanto fábrica colectiva global que é simultaneamente rede de distribuição. Com milhões de processadores incansáveis e grátis, software de fábula grátis e milhões de seres humanos a usá-los, a Internet gera abundância nunca vista.

Primeiro, veio a abundância da cópia. Músicas aos milhões, puxáveis por ínfimas fracções de euro (a ligação à Internet tem, apesar de tudo, um preço).

Depois, veio a abundância de informação e entretenimento. Recolher os elementos, produzir uma notícia E DIVULGÁ-LA tornaram-se actividades ao alcance económico de qualquer pessoa. Para editar um blog nem é preciso saber escrever, basta saber apontar um rato e carregar num dos dois botões. Os media gemeram.

O Caterpillar da abundância atinge agora a programação de software. Com nos blogs, basta saber usar o rato para juntar peças e criar um “programa” para produzir resultados. Um programa partilhável, que outros poderão utilizar, reutilizar, manobrar. Sem que nenhum programador tenha de mexer um dos seus bem pagos dedos.

Não falo apenas de sistemas como o fantástico Pipes, da Yahoo!, ou o arsenal de aplicações da Google prontas a enfiar em qualquer página ou site. Várias empresas competem na arena das widgets — pequenas “caixas” com conteúdos ou serviços que são distribuidas e redistribuidas pelos próprios utilizadores.

Subindo um pouco — mas não muito — na escala do conhecimento: hoje um programador amador ou hóbista (como é o meu caso) pega em conjuntos de rotinas previamente empacotadas e produz aplicações que até meses atrás só estavam acessíveis a profissionais de alto nível.

Assim, tarefas que antes da Internet estavam profissionalizadas e podiam render bons salários, são hoje acessíveis, a custo zero virtual, a praticamente qualquer QI acima de macaco.

Duas consequências, a primeira observável desde logo, a segunda a médio prazo.

Primeira: as respectivas classes profissionais sofrem no ego a degradação do reconhecimento social e na carteira a degradação da economia das respectivas indústrias. Quanto mais inflacionado estivesse o nível do ego colectivo, pior (muitos jornalistas ainda se acham deuses superiores, apesar de em muitos casos não se distinguirem do cidadão informado e de raciocínio capaz).

Segunda, ocorrerá uma triagem, que separará tais classes em vários níveis conforme o seu grau de adaptabilidade às novas circunstâncias. Que comportam tanto de ameaça quanto de oportunidade. Programadores que hoje se acham parte de uma elite terão de procurar o ganha-pão nas zonas do fraco valor acrescentado, na parte nada nobre da programação a retalho, assim ao nível do ajudante de mecânico, comparando com o mundo automóvel. Isto a maioria, enquanto as minorias subirão na escada do valor passando aos macro-serviços.

Tal como sucede na indústria da música e no jornalismo, actividades onde continuamos a assistir ao pungente fingimento de que tudo está na mesma, também entre a indústria da informática teremos, não tarda, o grupo dos negacionistas — os que dirão que “a crise” é a única responsável pelos despedimentos e restruturações e que, mal o dinheiro volte a jorrar, retomarão os antigos privilégios.

Más notícias para eles: não, não retomarão privilégios. O tsunami do amadorismo varrerá também essa praia.