Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de abril de 2010

A propósito do salário de António Mexia (e outros CEO)

Nas leituras de fim de semana vi no New York Times a tabela “The Pay at the Top”, que relaciona os salários dos 200 CEO de topo nos Estados Unidos da América. Decidi partilhar e, para chamar a atenção dos leitores (defeito profissional, sem dúvida) decidi relacioná-lo com a realidade próxima, nomeadamente com a conversa sobre o salário de António Mexia.

O meu tweet foi:

O salário de Mexia colocá-lo-ia na tabela dos 200 + bem pagos CEO dos EUA. cf. tabela do NYT http://s3g.me/8qm

Foi imensamente retransmitido, e ainda bem. Algumas pessoas interpretaram o pequeno texto (tem estrategicamente 111 caracteres, para facilitar o retweet) como uma posição minha sobre o salário de Mexia. Quando tuitamos um link com uma mensagem nossa, e não apenas o título do artigo ligado, não fica claro se estamos a endossar, criticar, elogiar ou simplesmente a convidar as pessoas a lerem o artigo no destino. É da natureza do Twitter e nem vou entrar por aí.

A minha ideia quando publiquei esta nota não era discutir o merecimento, mas proporcionar uma comparação para um assunto que tem ocupado manchetes e conversas nas redes sociais.

Para entrar na conversa propriamente dita, vamos a isto.

Quanto ao merecimento, quero apenas dizer que se eu fosse accionista de qualquer empresa com voto na definição do salário do CEO, faria o que me fosse possível para que este não ultrapassasse 20 x o salário médio do país em que a empresa pagasse impostos. Isto à partida. Pois admitiria aumentar ou diminuir em 20% esse tecto em função da realidade social do país em causa. Também aceitaria prémios anuais em função da avaliação dos resultados financeiros, económicos e sociais da empresa, com pesos diferentes — mas com um limite máximo.

Transpondo isto para o Portugal actual: 16 x o salário médio seria a minha recomendação para o CEO da empresa, 8x para o board, 6x para os altos quadros e 2x para o resto do pessoal.

O salário de um CEO pouco ou nada tem a ver com o “merecimento”, e muito ou tudo tem a ver com o poder e a hierarquia dentro de uma estrutura.

Repetindo este conceito-chave: o salário de um CEO não decorre da produtividade do próprio, mas sim do curso do poder, da figura do próprio e da estrutura interna da empresa ou conglomerado. Os resultados financeiros de uma empresa são o exercício de um contínuo que envolve muitas peças, muitas pessoas, muitos tempos, não apenas o presente — e quanto mais complexa for a empresa e a sua dispersão de mercados, receitas e geográfica, menor é o contributo individual de qualquer dos seus assalariados, peças instrumentais (como participadas e sub-contratadas) ou mesmo políticas.

Resulta que o salário do CEO é sobretudo simbólico. Simbolo de poder, muitas vezes para fora da estrutura accionista, para o mercado, ou para os clientes; outras vezes para reforço do poder interno.

Para terminar: nem eu sou presentemente accionista de qualquer empresa cotada, muito menos com voto, nem a EDP é uma empresa privada normal, e António Mexia ganhou mais que Steve Ballmer (isto ao menos eu acho justo).