Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de julho de 2011

Ao lado disto a crise financeira, a globalização, a dívida pública são irrelevantes

Crise financeira? Demografia? Globalização? Mau desempenho económico? Corrupção? Dívida pública? Nada, mas mesmo nada disso é importante quando olhamos para o que realmente envenenou o modo de produção capitalista ao ponto da sua possível morte próxima: a acumulação do produto gerado, da riqueza, no topo da cadeia alimentar e a consequente erosão das classes médias, iludidas e enganadas no período adolescente do sistema com o acenar da “mobilidade social”.

Os dados dizem respeito ao crescimento do rendimento pelos vários extratos da população americana mas não temam extrapolações para os países onde o sistema capitalista chegou, como nos EUA, à maturação. Os números foram verificados pelo insuspeito PolitiFact, que classifica o argumento (e o gráfico abaixo) como Mostly True.

(Clicar no quadro para aumentar. Ver original no Fair Economy)

O FMI, esse perigoso antro socialistóide

O downgrade de Portugal pela Moody’s teve pelo menos um efeito positivo: levou o realismo a algumas pessoas que andavam, digamos, intelectualmente distraídas, e permitiu que quem critica a financeirização e os seus mecanismos não seja imediatamente apodado de louco, “socialista”, mal-intencionado, ignorante e a demais adjetivação tão colorida quanto fútil com que as mentes mais “brilhantes” dos neo-cons em fase de instalação no poder executivo e no Estado gostam de escavacar todos os que não obedecem aos seus ensinamentos e não viram a liberal luzinha.

Note-se por exemplo neste parágrafo:

The crisis is the ultimate result, after a period of decades, of a shock to the relative bargaining powers over income of two groups of households, investors who account for 5% of the population, and whose bargaining power increases, and workers who account for 95% of the population.

E neste:

“The key mechanism is that investors use part of their increased income to purchase additional financial assets backed by loans to workers. By doing so, they allow workers to limit their drop in consumption following their loss of income, but the large and highly persistent rise of workers’ debt-to-income ratios generates financial fragility which eventually can lead to a financial crisis.”

Não, não é uma tradução de um artigo de Francisco Louçã. É um paper de 2010 em que se aponta a crise financeira como uma feroz acentuadora das desigualdades, publicado por esse perigoso antro socialistóide que é o Fundo Monetário Internacional.

Todos quantos se sentem, como eu, violentamente atacados pelo nosso Presidente da República podem usar estes dados para resistir à subversiva e perigosa ideia de que os sacrifícios devem ser igualmente repartidos. Porque repartir igualmente os sacrifícios é o último degrau da escada que leva ao fim do sistema.