Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de outubro de 2008

Banda portuguesa ganha 50.000 dólares no Sell A Band

Uma banda portuguesa, os Nearfield, conseguiu o almejado financiamento de 50.000 dólares no Sell A Band, a editora online comunitária em que os ouvintes apostam comprando acções das bandas.

São os primeiros portugueses a conseguir o objectivo dos 50.000 dólares — a fasquia que dá o direito a gravar e editar um álbum em CD. Tanto mais assinalável quanto a fasquia não é nada fácil de atingir: apenas 0,3 por cento das bandas que se inscreveram no Sell A Band desde que este abriu, no Verão de 2006 (noticiei por duas vezes o Sell A Band nesse ano, no caderno de Economia do Expresso, que foi o primeiro órgão de Comunicação Social português a noticiar este potencial).

[ Artigo em republicação, para efeitos de arquivo. Primeira versão publicada esta semana no Expresso Multimedia ]

A SellABand (link: www.sellaband.com), é uma start-up nascida em Amesterdão, resultando das ideias do visionário Pim Betist e de duas velhas raposas da cena musical europeia, Johan Vosmeijer (carreira de décadas na Sony Music, na Holanda) e Dagmar Heijmans (“feito” na EMI, passou ainda pela Sony BMG). Ao fim de somente um mês de operação o sucesso traduzia-se em mais de 250 bandas de 30 países que em conjunto recolheram 25.000 dólares de mais de 1.500 fãs investidores.

Fui também dos primeiros portugueses a investir numa banda: o projecto Merankorii. 20 dólares que serviram para testar o sistema para a reportagem no Expresso, o meu objectivo, mais do que para ajudar a banda, embora esta o merecesse.

Nesse longínquo Outubro de 2006 apenas duas bandas portuguesas tinham descoberto o Sell A Band. Na semana em que os Nearfield conseguem o prémio, este número é de 323, num total de 8600 — and counting.

Segundo leio no Remixtures, um blogue muito bem informado sobre a nova cena musical, com os 50.000 dólares agora recolhidos os Nearfield irão gravar um duplo álbum intitulado Near U em estúdios situados em Montemor-o-Novo.

Pormenor curioso: entre os financiadores dos Nearfield está a Amazon britânica, que tem 100 partes, correspondentes a 1.000 dólares.

Crowdfunding

O modelo do crowdfunding, arriscado quando o Sell A Band começou, é hoje uma realidade. A empresa obteve já este ano uma injecção de capital no valor de 5 milhões de dólares. E deixou de ser a única a apostar neste esquema em que se recorre à “sabedoria das multidões” para detectar o talento e financiá-lo.

Aqui, as bandas inscrevem-se e submetem faixas originais, que são apreciadas por uma plateia mundial. O objectivo é angariarem os 50.000 dólares necessários para gravar 0 CD em estúdio profissional e produzido por especialistas.

O financiamento é angariado junto dos próprios fãs de cada banda. Tratados pelo sugestivo nome de “Believers” (os que acreditam), investem “partes” de dez dólares nas bandas favoritas ou promissoras. O dinheiro pode ser canalizado entre grupos musicais. Quando um destes atinge os 50.000 dólares vai para estúdio e cada investidor receberá o CD em edição especial. Mas não só: tem ainda direito a receber uma percentagem sobre as vendas do CD nos canais contratados pela SellABand (que não recebe um cêntimo das vendas) e outra percentagem, calculada ao ano, das receitas de publicidade obtidas pela banda no website da SellABand, onde as suas faixas permanecem para “download” gratuito.

O crowdfunding é apontado como uma das soluções de financiamento para o jornalismo num futuro próximo, sobretudo para a investigação e reportagens de fôlego que as empresas de media se mostram incapazes de sustentar, tal como as micro-receitas da web.