Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de novembro de 2008

Economia do spam contradiz Eric Schmidt

Saiu há poucas horas um relatório sobre a economia do spam que vem contradizer algumas afirmações do CEO da Google, Eric Schmidt, numa entrevista que vi por estes dias. Schmidt diz — e com razão — que “you can have a long tail strategy, but you better also have a head, ’cause that’s where all the revenue is” (em The McKinsey Quarterly).

Sim — é melhor ter uma estratégia mista, sobretudo se somos uma empresa de conteúdo. E a head será sempre um bom negócio, o refinamento tecnológico só o melhorará. Mas um dos mais rentáveis negócios da Internet, que já cá anda há uns bons anos, com taxas de retorno absolutamente inacreditáveis e um movimento anual da ordem dos milhares de milhões de dólares, dispensa a head, preferindo operar exclusivamente na cauda: o spam.

Um estudo citado pela BBC dá-nos conta da crua realidade por detrás desse espantoso negócio. Apenas 1 em cada 12,5 milhões de mensagens de spam obtém resposta — apurou o estudo. Um negócio assente numa taxa de resposta destas, como é possível?

É possível graças aos mesmos factores que possibilitam a exploração da cauda longa e tornaram obsoletos alguns postulados económicos assentes no princípio de Pareto (e não a teoria, que de resto confirmam). O primeiro dos quais, o custo absolutamente irrisório do esforço de vendas, digamos assim.

Os spammers não pagam, sequer, o processamento dos ziliões de mensagens que enviam: usam redes de computadores domésticos em que se inflitram — para o estudo foram usadas mais de 75.000 dessas máquinas comprometidas, sem que os respectivos donos dessem conta. A última vez que estimei o número de zombies no mundo, já há uns anos, era superior a um milhão — parece que agora qualquer das grandes redes de spamming tem a sua própria “quinta” com uma quantidade de “zombies” dessa grandeza.

As boas notícias, se é que lhe podemos chamar assim: as conclusões do estudo apontam para uma diminuição da taxa de lucro dos operadores de spam.

As más: a capacidade de inovação dos spammers sempre superou as dos que lhes dão caça, pelo que é improvável o seu recuo; o negócio é à prova de recessão: quanto mais em baixo estiverem as pessoas, mais procurarão o tipo de produtos que faz a fortuna do spam, essencialmente as drogas de compra livre. A cauda longa não tem fim.

(Artigo de arquivo; publicado originalmente no Expresso Multimedia)

Paulo Querido, jornalista