Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de julho de 2008

iSheep

Steve Jobs é que sabe. É o verdadeiro hacker. Com base apenas em engenharia social, coloca a imprensa mundial a promover as vendas de um telemóvel caríssimo sem lhe pagar um cêntimo em publicidade e convence um rebanho incrivelmente dócil a 1) espalhar a messiânica mensagem e 2) a comprar um aparelho para o qual não tem dinheiro, nem agora nem para as mensalidades, julgando que é uma pechincha.

Steve Jobs é o mágico do século XXI e vale mais, sozinho, que a trindade que tornou a web numa máquina registadora chamada Google, para desespero dos berlusconis e balsemões deste mundo.

Há um ano, o iPhone era visto como um aparelho caríssimo e inacessível ao português médio, talvez até ao alto. 499 ou 599 euro por um telemóvel, mesmo um telemóvel que faz o pino e canta, é uma pipa de massa, para roubar a expressão a Belmiro de Azevedo.

Um ano depois, a corrente lusitana dos iSheep não só corre para as lojas para se sentir feliz a adquirir, pelo mesmo preço que 365 dias antes achava inalcançável e impossível, como o faz exactamente da forma que Steve Jobs (que é a Apple sozinho, simultaneamente o board, o staff de PR, o evangelista, o porta-voz, o engenheiro-chefe e o hacker) imaginou que o ia por a fazer: primeiro de gatas, depois a disparar por um corredor fora, como se a loja fosse uma pista de atletismo e o primeiro a chegar à meta ganhasse a glória.

Ilusão pura, proporcionada pelo mágico Steve Jobs, que não apenas diverte a feira inteira como ainda manipula as televisões servindo-lhes um espectáculo mediaticamente irrecusável: pessoas a correr para serem as primeiras a comprar um produto que daqui por três meses estará a metade do preço — e a mediática maçã da Apple como pano de fundo.

Não há corrida nem primeiro, há apenas aparelhos para todos os tansos capazes de pagar um ordenado mínimo para fazer esta triste figura para as câmaras e ficarem com um aparelho que muitos vão colocar no prego antes do fim do leonino contrato com o operador.

Como qualquer outra ovelha ordinária, os iSheep não querem saber se do outro lado do caminho o pasto é mais tranquilo e a erva mais acessível. Foram condicionados, preparados ao longo de meses, para no dia D estarem na loja L a arfar, de língua de forma prontos o que der e vier. A campaínha toca e eles saltam.

Os editores não podem resistir: o apelo da maçã é demasiado forte. Mesmo os que instintivamente sabem que estão a ser levados numa encenação, não podem deixar de ir. A encenação é boa demais para ser mentira. É até notícia, Jobs é uma pessoa muito compreensiva para com as necessidades editoriais!

É simples. Primeiro, diz-se que é estupidamente caro. Se é estupidamente caro, deve ser estupidamente bom. Elite. Não é pra nós. Quem? Eu, 500 euro por um telemóvel? 100 contos? Tás a mangar, ou quê?

Depois anuncia-se que afinal, na Europa e tal, o preço deve ser a tradução do dólar — ui, isso dá, faz as contas, uns 300 euro. Hum…

Depois, um site geralmente muito bem informado diz que tem uma pista de dentro e que lhe disseram que o iPhone deve ir custar uns 249 euro, mas ainda não está confirmado. Há sempre um idiota útil por perto que especula e leva o número aos 199 euro. A produção de saliva dispara: ena, afinal se calhar posso comprar o brinquedo!

Três semanas antes do Dia D a euforia começa a tomar conta dos iSheep e da assistência também. A poucos dias, já com toda a gente histérica e as primeiras notícias de Imprensa a prever longas filas, noitadas com saco cama à porta das lojas, circo montado, sabe-se o preço! 499 euro o mais barato, 599 o mais potente, duma data de gigas, aquilo leva música toda do mundo dentro, méne! E em regime de exclusividade, topas? Dos três operadores nacionais, só o meu é que tem! (Seja o teu qual for pois todos têm, começam 2 e a TMN entra na dança quando for altura da primeira baixa de preços, que não tem data marcada no calendário mas se sabe quando é: é precisamente 2 semanas depois da Imprensa noticiar que o ritmo de vendas a 499/599 começou a abrandar).

Os poucos que ainda são capazes de colocar os neurónios a bulir pensam, afinal custa caro, mas que se dane, EU TENHO DE TER uma coisa destas.

Está tudo justificado. Jobs tratou disso.

Para garantir o ponto de rebuçado para as câmaras no Dia D, 24 horas antes um operador “fura os acordos” e “anuncia” a primeira “redução de tarifário”, ainda antes do lançamento. Adoram os consumidores, são uns seus escravos, que simpáticos. Ficamos assim a saber que pagamos várias vezes mais pela mesma quantidade de tráfego que um italiano, mas como os tarifários são muito mais complicados de entender do que um iPhone de usar, ninguém sabe realmente quanto lhe vai custar o brinquedo.

Por exemplo, há um desconto para quem comprar o aparelho ao preço de custo, em vez de o comprar na modalidade “subsidiada” — sendo o “subsídio” a mui honrosa possibilidade de pagar tanto o aparelho como o seu uso a preços acima do normal durante 24 meses! Se preferir não recorrer à gentil oferta, então pagará o preço de custo do aparelho e está sujeito ao tarifário normal.

Não entendeu? Se pagar os 499 de uma vez tem desconto num dos tarifários e um bónus nos SMS. Se não pagar os 499 de uma vez, paga-os com juros em 24 meses durante os quais tem um tarifário alto e fixo, se tudo baixar você continuará agarrado ao tarifário alto, pelo que vai pagar menos.

Não entendeu ainda? Vá ao médico, você é uma ovelha esquizofrénica e eu não tenho tempo para isto.

No dia 15 de Outubro, o mais tardar, o preço do iPhone cai 40% a 50% e 1 operador, ou talvez 2 ou 3, anunciam mais um tarifário mais barato e as câmaras voltam às lojas para uma nova corrida, desta vez às vendas de Natal.

Minhas senhoras e meus senhores, apresento-vos o iPhone. Que terá em 2009 uma versão de 120 GB — Hollywood na palma da mão.