Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de março de 2008

Microsoft e interoperabilidade — ou a história da carochinha 2.0, 3.0, 4.0…

A Microsoft anunciou um “pacote de iniciativas para a interoperabilidade” que — informa o solícito responsável pela Estratégia de Plataformas da Microsoft em Portugal, Marcos Santos — está em linha com o que o mercado no geral vem pedindo aos vários fornecedores de tecnologia: mais interoperabilidade, mais abertura e mais estandardização/normalização.

O problema de Marco Santos é o problema geral da Microsoft: é difícil acreditar no que dizem. No caso dele, o problema é agravado quando leio o que disse ao Tek Sapo, que “a tendência do mercado é de convergência: as empresas de desenvolvimento open source estão numa tendência de se aproximar do modelo proprietário (RedHat, Novell, entre outras) e por sua vez as empresas de desenvolvimento de software proprietário estão-se a aproximar do modelo open source (SUN, IBM, Microsoft e outras)“.

Este responsável faz confundir economia com modelo de desenvolvimento de software. A Red Hat, como qualquer empresa open source, persegue o lucro e como tal adopta práticas comuns às empresas do software fechado: venda de serviços e produtos, angariação de clientes em contratos de outsourcing, etc. Já o vice-versa não é verdadeiro: as empresas do software proprietário não adoptam modelos abertos de desenvolvimento e distribuição de software (ou deixariam de ser empresas de software proprietário).

Algumas destas — como é o caso da Novell, citada erradamente por Santos como uma empresa de desenvolvimento open source — tem vindo a comprar posições e know-how no mundo do código aberto, mantendo o seu core business das linhas de produtos proprietários.

Um pingo de história para melhor percebermos os actuais objectivos desta história da carochinha. Os responsáveis da Microsoft conhecem muito bem a Novell — a empresa que mais perdeu com o advento Internet. A Novell tinha das redes uma visão rigorosamente fechada, em que os seus produtos — nomeadamente a Netware, um pacote estupendo — seriam adquiridos por todos. E nos anos 90 estavam a sê-lo: a Novell tinha mais de 90 por cento do mercado de redes. A Microsoft, que tinha um produto concorrente, viu a “luz” dos protocolos abertos mais cedo que a Novell e a adopção rápida do TCP/IP no Windows 95 ajudou a tirar à Novell o protagonismo e hemegonia no mercado, condenando-a à irrelevância da subsistência.

Em 2003 a Novell comprou o Suse Linux — uma das muitas distribuições do sistema operativo aberto Linux. Tenta levar a bom porto o seu negócio, usando o que lhe resta da imagem e da relação com os clientes para apresentar produtos alternativos. Se nos lembrarmos que o seu produto é uma ameaça, por minúscula que seja, ao reino do desktop onde a Microsoft é rainha, percebemos melhor porque é referida nos termos em que é referida por Marco Santos.

O termo open source sujeita-se a muito tipo de abusos — este é apenas um deles.

Quanto à credibilidade da empresa: acredita nela quem quiser, uma vez que o registo histórico aconselha prudência. E então no caso vertente, de interoperabilidade! Em Portugal como noutros a empresa manipulou como pode as recentes votações para um normativo comum de ficheiros, com o intuito de uma vez mais condicionar o mundo à utilização do SEU conceito.

Uma coisa devo dizer em favor da Microsoft: uma vez de posse do dicionário de microsoftês, os seus discursos são absolutamente transparentes no que se refere às suas intenções.

Quem também tem o dicionário é a ESOP, a associação de empresas de software open source portuguesas. Num press release de dia 25 apresenta um “esclarecimento à imprensa relativo à recentemente divulgada iniciativa de publicação de documentos técnicos por parte da Microsoft”.

Nele recorda que “o ecossistema open source interage sem qualquer distinção com os seus produtores/consumidores/integradores sejam estes indivíduos ou organizações e tenham ou não fins comerciais. As licenças de distribuição open source, são bem claras no que se refere à gestão de alterações e contributos ao código fonte, sendo a sua aceitação feita em função do mérito dos mesmos, independentemente dos fins – comerciais ou não – das entidades envolvidas. De facto, é prática comum haver código open source a ser desenvolvido por diferentes empresas, universidades, organizações e indivíduos sendo o resultado final aplicado no mercado diferentes formas (por exemplo Firefox, Openoffice, KDE, Apache, SugarCRM, MySQL)”.

Esta reacção compreende-se bem: a Microsoft passou 20 anos a diabolizar o open source, produzindo afirmações espantosas sobre a ameaça negra que o “movimento” fazia pender sobre a indústria e o comércio de software.

Mais adiante alega que “o modelo proposto pela Microsoft para consulta da documentação que disponibiliza é na nossa opinião incompatível com o modelo de desenvolvimento open source, uma vez que pretende diferenciar o acesso em função da forma de distribuição do software desenvolvido. Tal é claramente impraticável pois dificilmente os projectos open source se interessarão em sacrificar a sua independência em troca de documentação que condiciona a sua aplicabilidade”.

Por tudo isto a ESOP “não reconhece nesta iniciativa especial relevância e recomenda a todos os intervenientes no mercado open source alguma cautela, no que respeita à consulta da informação disponibilizada, para evitar futuros problemas legais”.

Eu, que não sou propriamente um interveniente no mercado, também não reconheço especial relevância a esta iniciativa da Microsoft, que vejo como mais um objecto de marketing. A União Europeia também não se deixa demover com acções de limpeza da pele e pediu à Microsoft uma mudança mais objectiva.