Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de setembro de 2008

O calendário dos portugueses é diferente: 60 dias não significa 60 dias, mas sim o tempo de pousio obrigatório para uma factura, que será paga, olhe, quando calhar

Acabo de ligar para um cliente que diz pagar a 60 dias. Esperei religiosa e calmamente dois meses — completados hoje — antes de ligar. Tinha feito uma espécie de aposta com 1 pessoa que me garantia, ah, não, uma entidade tão grande e idónea como essa, se dizem que é a 60 dias, é a 60 dias, dizendo-lhe: o que vai acontecer ao 60º dia é que vou ligar e eles vão-me pedir imensa desculpa mas ainda não abriram a ficha de fornecedor (ou o equivalente), e vão abrir, e é mais algum tempo, que pode ir de 15 a 60 dias.

Mais adiantei, antecipando a questão com um sorriso nos lábios, que não valia a pena ligar antes dos 60 dias. Sem estar cumprido esse religioso prazo de pousio de uma factura, não consideram, sequer, a hipótese de me passarem o telefone “à contabilidade” (ou o equivalente), porque, dirão garbosa e orgulhosamente, “nós quando dizemos a 60 dias, é a 60 dias”, e não admitirão nem uma vírgula a mais.

Traduzindo: quando em Portugal se fala numa factura “a 60 dias”, quer dizer que são precisos 60 dias e alguns telefonemas para que a factura entre no sistema. Não quer dizer que ela é paga ao 60º ou 61º dia, como se esperaria noutra língua.

Hoje cumpriu-se mais uma vez este devir português: Posso receber a factura, com sorte, dentro de 15 dias, mas também pode ser dentro de um mês. Ou mês e meio. Ou dois — a senhora da contabilidacde realmente não sabe, ela tem de aguardar por um formulário, preenchê-lo e finalmente colocar o assunto na calha de serviço, onde irá parar sabe-se lá onde, para ser enviado para não se sabe quem.

Se eu disser ao CEO que isto se passa, ele encolhe os ombros: considera que 60 dias é o PRAZO OFICIAL DA EMPRESA, o resto corre pela incompetência dos seus funcionários, ou pelo sistema informático (os computadores, como toda a gente sabe, são muito mais vagarosos do que as pessoas a processar, números em especial), ou simplesmente “pelo sistema” (muito chique nas grandes empresas onde o CEO nem sabe onde se processam as facturas).

Se acham que isto é um pesadelo — desachem. Não é. Pesadelo é quando temos uma prestação de serviços para o cliente do nosso cliente. Este processo duplica-se. Somos logo avisados: “só pagamos quando recebermos do nosso cliente”. Se tivermos o azar de vender 1 prestação incluída num pacote com mais fornecedores, o pesadelo torna-se dantesco e incontrolável.

Terminei em Junho um serviço que só pude facturar em Setembro e que — sou um optimista incorrigível, eu quero acreditar! — indo tudo correr bem, receberei provavelmente ainda no curso do ano de 2008.

Se acham que isto é mau, é porque ainda não ouviram um amigo meu de uma PME já respeitável, que continua a ter um crédito de 250.000 num grupo 500 vezes maior que ele, cotado em bolsa e rico, e que andou a enrolar a manta dizendo que o queriam comprar. Há mais de um ano que ele anda para receber. Nem compram, nem pagam.

Chegados aqui, alguns leitores que amam a iniciativa privada e vibram com cada golpe baixo que uma empresa seja capaz de desferir dirão, ah e tal, mas o Estado ainda é pior. Não sei como está hoje: não trabalho para o Estado há mais de seis anos. Na altura, demoravam 4 a 6 meses a pagar-me. Mas o prazo era relativamente estável: sabia com o que contava. Podia até calcular juros e metê-los escondidos no preço. Não sei como é hoje.