Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de outubro de 2008

O estado que comande

Francisco Vanzeller acabou de dizer na RTP algo verdadeiramente espantoso, para alguém como ele. Pediu que o Estado comande, oriente a economia.

Eu, francamente, acho esta nova posição dos liberais uma porcaria. Uma porcaria para todos os outros, claro, porque para os defensores do mercado, e em especial para quem dele retira lucro, faz todo o sentido: os lucros, privatizam-se, os prejuízos, nacionalizam-se.

E uma porcaria por outra razão. É ainda cedo para avaliar o impacto verdadeiro deste ataque cardíaco do capitalismo na economia. As finanças tornaram-se essenciais ao longo dos tempos, mas não são necessariamente decivisas para a economia, seja para o seu crescimento, seja para a sua manutenção. A finança é um instrumento da economia. O dinheiro tornou-se um bem como os outros e acabou por ultrapassar a importância de outros. Se perder, agora, alguma dessa importância, até que ponto isso será lesivo da construção económica?

Assim, esta aparente capitulação dos donos do dinheiro a mim diz-me o mesmo que as lágrimas dos crocodilos. Ignoro-a.

A crise económica é prévia à crise financeira e tem outros fundamentos. É até possível termos um cenário em que os agentes económicos, forçados a agir em função do trabalho (físico e intelectual) e menos em função das expectativas (é disso que tratamos quando falamos do sistema financeiro), sejam capazes de dar conta do recado da crise. Tirando também partido de matérias primas ao seu preço justo, e não ao preço do mercado, que exacerba o valor da expectativa sobre a sua rentabilidade.

Basicamente, sendo mesmo básico, o que falta à economia é dinheiro, liquidez, e não trabalho, matéria prima e ideias, havendo de tudo isto uma abundância a preços francamente convidativos.