Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de outubro de 2008

O estranho mundo dos jornais de província (e da província, vendo bem as coisas)

O Alexandre Gamela diz aqui que não percebe “como é que há jornais locais em Portugal que gastam imenso dinheiro em plataformas fechadas — e sites horríveis — criadas por empresas de informática que se encarregam elas mesmo de alterar os conteúdos e layout das páginas, fechando esse processo à redacção

Eu percebo.

Cenários.

1. Os donos do jornal ouviram falar da Internet e há um amigo que indica uma empresa que vê a mina. Fornece a “aplicação”, que é um backoffice tramado de fabricar, pois então, tem de corresponder às especificidades de uma Redacção (nalguns casos o trabalho do programador consiste em retirar zelosamente os links e menções óbvias de dentro de um CMS obscuro sacado na versão mais barata) Dá uma formação deficiente, ou nem se dá ao luxo, até porque vendo bem as coisas ninguém lá do jornal tem tempo para essas mariquices da net. E acaba a meter os conteúdos — o que é um contrato de “manutenção” simpático.

2. Como em 1, mas alguém no processo sabe que há fundos comunitários, ou mesmo nacionais, que vão pagar a troca cruzada de “serviços” — e fica tido mais fácil para toda a gente. O produto deste negócio não é o jornalismo, reduzido à condição de pretexto, cenoura. O produto deste negócio são os títulos e a sua articulação. Mas há um ganho: o jornal fica online. Bem, pronto, não digam nada: pelo menos uma versão do jornal fica online, parem de armar em esquisitos. Os custos, who da fuck cares, alguém pagou, e quanto mais caro for melhor — incluindo do ponto de vista de quem pagou, e que vê por cima, vê que o dinheiro vai girar, vai entrar na economia, vai render algures, também não vai perder tempo a discutir detalhes como o “jornalismo” e se o jornal interessa ou é do conhecimento de alguém a sua existência.

3. Como em 2, mas sem sequer o cuidado com o detalhe do “jornalismo”.

4. Ignorantes adeptos da teoria do quanto mais caro, melhor, não acreditam na solução que o chavalo de rabo de cavalo, olheiras e t-shirt preta, vulgo geek lá da terra, tenta vender-lhes, armado em herói, só quer ganhar o serviço de instalação e manutenção. Não. A coisa tem de ser o melhor que houver, como lhes aconselham os tios do amigo do chavalo — que fazem dois telefonemas e ganham a justa percentagem por mexer de um lado para o outro um pacote de CDs e manuais que nunca ninguém será capaz de ler, quanto mais perceber. Quando avaria, desliga-se e liga-se ou chama-se o gajo da loja de informática que vende o tonner para as impressoras, e que aproveita para vender mais um disco ou um “upgrade”, para não perder o dia. Ou então deixa-se estar: assim como assim, já se venderam os anúncios e já se mostrou “o site” ao cabeleireiro do banner de topo.

Topas, Alexandre? Ou precisas de mais cenários desse estranho mundo dos jornais de província?

Joomla? Isso é muita revolucionário, muito à frente, méne! Gratuito? Não pode prestar, uma coisa gratuita não vale nada. A menos, bem entendido, que seja o trabalho dos jornalistas, que ganham muito mais do que o que valem.

Espero, sinceramente, que a tua geração de jornalistas consiga mudar isto. A minha nem soube disto: a sua única preocupação foi, é e será o que conhecem, o papel e o microfone.