Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de fevereiro de 2011

O problema do assalto à democracia para salvar o capitalismo

O assalto à democracia já começou nas sociedades abastadas, as ganhadoras do PEH, o Período Excepcional da Humanidade — as décadas entre o fim da I Guerra Mundial e o advento da Internet, ou 1920-1990. No período atingiram-se os equilíbrios sociais necessários à paz que retira riscos à atividade económica e a energia barata e abundante acelerou a geração de riqueza.

E o assalto vem das pessoas que procuram salvar o que afirmam ser seu. Ou seja, vem dos interessados na preservação do sistema capitalista, medrado e aperfeiçoado ao longo do PEH.

Ao mesmo tempo, assistimos em parte da Cintura Islâmica, norte de África incluído, ao movimento contrário: sociedades exaustas pelas guerras e pelas tiranias que nelas se sustentam (ou as financiam extraterritorialmente) rebelam-se procurando a paz através do único caminho que apresenta resultados satisfatórios: a negociação contínua dos interesses, ou seja, a democracia.

Mas essa é a menor das forças atuantes contra os interesses dos assaltantes da democracia. Estes — recorde-se quem são: os principais beneficiados do PEH — acreditam que as convulsões sociais que se adivinham se combatem com o fim da negociação e a imposição de regras, recuperando um tipo de organização social em que o poder resulta da força, ao qual recorremos amiúde ao longo dos séculos.

É natural que essa seja a sua solução do capitalismo, na medida em que representa a evolução natural do sistema. O capitalismo precisa de competição nos estádios primevos, para que se possam promover os mais capazes, e tende, naturalmente, a eliminar os riscos à medida que amadurece. Ou seja, passa a representar uma vantagem eliminar ou controlar a competição, isto é, fechando a atividade num ambiente circunscrito no qual só entram os autorizados, por herança ou casamento.

Uma incógnita reside em saber se é possível, e em que grau, levar a financeirização das atividades humanas até ao ponto da substituição de princípios, éticas e regras de uma sociedade ricamente plural pelo código simples e monoteísta do direito do mais forte à liberdade.

Outro problema é precisamente essa propensão genética do capitalismo para a industrialização dos processos vencedores. Os sinais que começam a despontar na Bolsa de Nova Yorque são estranhos e dão que pensar: diminui a importância de Wall Street para a geração de riqueza, e a sua relação com a economia real, à medida que o comércio do dinheiro se torna no seu único objetivo e a circunscrição aos financeiramente mais aptos exclui o acesso das empresas inovadoras. (Facebook e Twitter, por exemplo, avançam com acesso a capital fora do respetivo mercado, uma tendência em crescimento.)

Mas essas são apenas interrogações sobre a evolução digamos filosófica. Digamos, as variáveis imprevisíveis. O problema da equação são as variáveis previsíveis.

A primeira das variáveis previsíveis é a demografia. A segunda é a automatização dos processos produtivos. Quando as introduzimos no modelo de predição, deixa de ser nítida a imagem da ditadura a triunfar sobre a democracia. Aumentar o valor das variáveis “abertura” e “benevolência”, do lado da ditadura, não tem efeito sobre a imagem desfocada do futuro.

Quando combinamos essas duas variáveis previsíveis o resultado é simples: demasiadas pessoas objetivamente sem trabalho nem necessidade dele, individual ou coletiva.

Num ecosistema produtivo, como uma fábrica ou uma empresa de serviços, a solução do modelo capitalista funciona: elimina-se o desperdício.

Ora, o custo da eliminação de um “desperdício” como o que se apresenta é demasiado pesado. Não apenas nos custos diretos (é uma atividade onerosa) como nos custos de imagem (comprar os meios de distribuição de informação, hoje com a Internet, é incrivelmente dispendioso em tempo e dinheiro).

Logo, essa impraticabilidade de lucro torna-a numa solução improvável.

A solução que tecnicamente daria mais jeito a um sistema herdeiro do atual, tal como alguns ilustres escritores de ficção social do século passado vislumbraram de forma mais ou menos cinéfila, é reduzir ao mínimo indispensável as despesas com a manutenção de vida da mole e entreter as suas curtas existências com alienação preferencialmente mais barata.

Esta solução garante a manutenção do status quo e o controlo firme do círculo de poder.

Isto, bem entendido, com um modelo de organização político-social substituto da democracia que respeite os valores dominantes das elites proprietárias dos nossos dias, e que se consubstanciam num sistema ditatorial ou impositivo, policial quanto baste.

Haverá uma solução para esta equação que continue a passar por uma sociedade de equilíbrios negociados, isto é, democrática?

A resposta é talvez óbvia demais. Basta mexer no modelo de distribuição do produto gerado para reencontrar o tipo de “equilíbrio feliz” que marcou o PEH.

Tal implica, contudo, alguma desfinanceirização da atividade económica e descontaminação da toxicidade do lucro enquanto objetivo.

Um sociedade madura é uma sociedade mais dada ao lazer e à fruição do que ao trabalho e à competição. A sociedade ocidental, desde já, e dentro de algumas décadas todo o planeta, mercê da globalização, podem dar-se ao luxo de disfrutar a vida enquanto as máquinas produzem. Partindo do princípio que consegue fazer sobrepor os valores coletivos, isto é, civilizacionais, aos valores consuetudinários da micro superelite proprietária que concentra 90% do valor gerado ao longo de todo o PEH.

As próximas décadas podem ser apaixonantes — ou um imenso pesadelo. Mas por enquanto os analistas continuarão a ignorar as variáveis previsíveis e a apontar árvores, como o baixo desemprego na Alemanha, como sendo a floresta. A questão da sua credibilidade, contudo, começa a entrar timidamente na comunicação. E não só: também no processo. O Bank of England tomou a dianteira com um grupo que importa métodos de análise e massa cinzenta da Biologia e fala abertamente na necessidade de ajustar os modelos de análise à realidade. A premissa daquele banco é que a realidade económica e financeira ganhou através do PEH, e com aceleração provocada pela informática e pela globalização, uma complexidade que não terá sido acompanhada pelos modelos de análise. Teoria que sai reforçada pela nulidade dos resultados desses modelos, incapazes de predizer as crises dos últimos anos e incapazes, agora, de predizer cenários credíveis de médio e longo prazo.