Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de setembro de 2009

O que significa deter o poder no mundo da informática?

google-microsoft

A propósito da guerra aberta entre a Google e a Microsoft, perguntas e respostas (*).

Pergunta – Informação é poder. Acha, que cada vez mais, esta citação é uma realidade?

Resposta – Não diria “cada vez mais”. A informação sempre foi poder. Estando a mudar o acesso à informação, os equilíbrios de poderes levarão por tabela.

O que significa deter o poder no mundo informático?

Significa ter uma base de clientes maior que a concorrência.

O que despoleta esta “guerra” entre as empresas?

Aceder ao mercado. Quanto maior for o número de clientes, maiores serão os lucros. A Google e a Microsoft são corporações como as outras: competem pelo domínio do mercado.

Qual o impacto desta disputa no segmento informático? E no económico?

No segmento informático há um impacto esperado. Quanto mais a Google reforçar a sua base instalada, mais o conceito de software aberto e livre, práticas de cooperação e definições (standards) abertas serão reforçadas. Quanto mais a Microsoft reforçar a sua base instalada, mais se reforçam os conceitos de software proprietário, práticas monopolistas e definições fechadas a imporem-se ao tecido dos programadores, a chamada factura-Microsoft.

No económico, não tenho a certeza que haja um impacto diferenciado. Talvez a Google penda mais para alguma distribuição e a Microsoft surja como a avarenta, mas em termos de impacto no mercado não vejo grande diferença.

Qual a sua perspectiva enquanto utilizador?

Sou utilizador de produtos e serviços da Google. Estou satisfeito com a empresa, de uma forma geral. Como parceiro, nem tanto. A Google está a ter um efeito pernicioso no mercado de publicidade, cujo futuro é incerto. Decidi deixar de ser cliente da Microsoft há 3 anos e foi das mais sensatas decisões que tomei, relativamente à minha relação com a informática. Não uso nenhum produto deles e vivo feliz com a ausência dos problemas associados e com a poupança dos custos indirectos (anti-vírus, etc).

Como acha que os utilizadores vão reagir a estas mudanças, uma vez que no mercado informático, continuamos a ser animais de hábitos?

Há dois tipos de mudança. Por um lado, cada vez mais gente livre do paradigma Microsoft, cuja época já lá vai. Por outro, as pessoas descobrem, ao falar umas com as outras, que afinal há alternativas. Os próprios meios de comunicação genéricos atrevem-se já a desafiar a lógica do press-release e a noticiar as alternativas e os concorrentes de forma séria, em vez de os pintarem como eles surgem aos olhos da Microsoft: malditos, piratas, duvidosos. Ou, na melhor das hipóteses, como figuras circenses.

Resta ver a que velocidade se darão as mudanças. Importa-me mais a mudança de paradigma — computação distribuída, aplicações ubíquas — que a mudança de logotipos das empresas dominantes.

Uma vez que a Google apenas apresentou no blog a intenção de trabalhar num sistema operativo, pensa que poderá haver um adiamento do projecto ou até mesmo uma desistência?

Não creio que desistam. Estão há anos a trabalhar nele, indirectamente. Agora, a data final de saída de um produto unificado, o sistema operativo, pode ser adiada em função dos interesses da empresa.

Acha que o Office 2010 e as medidas a ele aplicadas (ser grátis) poderão influenciar os utilizadores?

Inevitavelmente, amortecem a queda. Estamos a falar de 1 base de clientes específica, as empresas, habituadas a incluir contratos e licenças nos seus orçamentos.

Pensa que o Windows 7 abafará um lançamento do Google Chrome OS?

Não imagino que possa abafar. O peso da novidade, da coqueluche fará essa balança pender para o lado da Google. Não conheço o Windows 7 para me pronunciar, mas temo que seja um novo flop, como foi o Vista. E estou curioso para ver como reage a Microsoft a um eventual segundo flop no mercado dos sistemas operativos, onde perde quota devagar, mas inexoravelmente.

(*) Entrevista para Semanário Económico em Julho de 2009