Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de junho de 2008

Podemos viver com o petróleo caro?

Será que podemos viver com o petróleo caro? A questão foi tratada na edição de sábado do Expresso e este tema é o mais interessante na minha perspectiva de leitor.

Os preços baixos acabaram na alimentação e na energia. Anda pelas duas dezenas o número de aumentos dos combustíveis deste ano. E entre 2003 e 2008 os preços do barril de crude triplicaram. Seja por acção dos especuladores financeiros, seja por manobras ou contingências dos países produtores, seja por acção das petrolíferas, a verdade é que hoje ninguém se atreve a dizer que a escalada de preços vai parar. Num mundo que consume o equivalente a uma piscina olímpica cheia de petróleo em cada 15 segundos e em que mais de 80% da energia ainda vem dos combustíveis fósseis, que futuro nos espera? Quanto vai custar a gasolina dentro de três, quatro ou cinco anos? Se nos transportes vão surgindo alternativas e formas de poupança, noutros sectores, como a pesca e a agricultura, a energia continua dependente do velho ouro negro. À escassez de alimentos junta-se a subida dos custos de produção e os preços não vão parar. Como vai responder a sociedade: uma adaptação ou uma mudança de paradigma? As pessoas vão apertar o cinto ou as convulsões sociais vão aumentar?

Para já, não há dúvidas: além de apertar o cinto, as convulsões sociais vão aumentar. Em Londres li na semana passada uma notícia de arrepiar: as bombas de gasolina começaram a instalar uns sistemas que bloqueiam os pneus de quem pretender fugir sem pagar. Nenhum dos apelidados de pessimistas para baixo, que andam a escrever livros sobre o assunto desde, pelo menos, o início do século teve a ousadia de prever que os distúrbios sociais começassem tão cedo. Os piores dos piores pensavam que a coisa ficaria preta (salvo seja) lá para 2030.

Sim: daqui por 20 ou mais anos.

Enganaram-se. É já em 2008 que começa o molho.

Há dois anos, em Julho de 2006, publiquei aqui no C! o seguinte texto, que hoje repesco.

O meu pai andava de camelo, eu conduzo um Rolls Royce, o meu filho dirige um avião e o filho dele andará de camelo.

É mais ou menos isto que pensa, quando pensa, o árabe lúcido, independentemente da sua tribo, seu credo e obediência política.

Se acha o leitor que isto nada tem a ver com a guerra em curso no Médio Oriente, desengane-se. O conflito obedece a uma única lógica: o fim à vista da energia barata que sustenta a enfatuada economia mundial. Tudo o mais pode ser relegado para a categoria de infotainment, vistoso mas acessório.

O Médio Oriente era há pouco mais de cem anos praticamente um deserto onde tribos nómadas escalavam oásis. Na sequência de problemas na Europa, os europeus e as Nações Unidas pegaram num balde de tinta, traçaram um perímetro no meio do deserto para onde foram atirados, com tantas promessas quantas quisessem ouvir, os sobressalentes desses problemas.

Tinha nascido Israel.

Mais ou menos por essa altura estabelecia-se no mundo a economia do petróleo. Azar dos távoras: o principal impulsionador do “progresso” assente na energia barata, os Estados Unidos da América, desbaratou depressa demais os seus recursos de petróleo e passou a depender de fora. As maiores jazidas de petróleo estão debaixo de pés árabes ou islamitas de outras paragens. O que não deixa de ser uma ironia dos Tempos: dar a chave do sucesso tecnológico a uma ex-civilização incapaz de a rodar na fechadura da História.

Durante algumas décadas depois da II Guerra Mundial o Médio Oriente foi um mero teatro de fantoches do confronto entre as potências. Mas os autóctones sempre ganhavam uns trocos como “figurantes”, vendendo o seu sangue a a quem desse (ou simplesmente prometesse) mais. Os sujos trocos do petróleo deram, no entanto, para acalentar o sonho de devolver poder ao ressuscitado islão. Saída directamente do deserto para o desenvolvimento urbano, a geração que tem a torneira do petróleo nas mãos mandou os seus filhos para as melhores universidades estrangeiras — onde estes aprenderam a dura realidade da vida: o tanque ficará vazio muito antes do autocarro-islão ter tempo de “entrar” no mundo moderno, como escreve Vasco Pulido Valente do Público.

Pela primeira vez em muitos séculos, o Médio Oriente volta a ser palco de confrontos locais. Israel é o bode expiatório (ainda VPV) e símbolo do Ocidente rico, “explorador” e tirano. O desespero de uma geração à qual fora destinada a honraria em vida vê-se afinal falhada, tendo somente a perspectiva do regresso ao lombo do camelo e ao pó do deserto. Não admira que os guerreiros prefiram antes a glória (e as virgens) pela morte na guerra religiosa.

«Ninguém no islão vive ou viverá em paz com Israel. E com o Ocidente», escreve Pulido Valente. Eu acrescento: nem com eles próprios.

Para Israel a sina é idêntica. Acossado por todos os lados, o país viu (bem) a sua oportunidade de se livrar por muito tempo das irritações com a vizinhança incómoda. Recuar seria péssimo.

Avançar é igualmente mau. O deserto quando renasce não é para todos porque o nível de organização da sociedade israelita bate aos pontos a organização das nações árabes circundantes — certo, mas a energia barata quando acabar acaba para todos. Ponto. Israel terá a sua paz mas então já nada importará porque teremos, todos, de baralhar e dar de novo na busca de novas economias e na reorganização da nossas sociedades.

A energia barata quando acabar acaba para todos mas há uns mais dependentes que outros. Os norte-americanos (aqui o termo é usado com propriedade: os canadianos incluídos) alicerçaram a sua sociedade em cima do dogma da energia barata para sempre. Quando perceberem que acabou será demasiado tarde (os cépticos acham que já é demasiado tarde ONTEM) para procurarem, digamos, uma terapia de metadona. A organização política não sobreviverá e os tempos serão duros para populações inteiras totalmente dependentes do automóvel e incapazes de produzir uma alface no quintal.

Na Europa a tragédia será menos negra — ou mais curta. Em países como a França, que prosseguiram algum tipo de políticas de substituição dos produtos em que assentam as suas economias (com resultados diferenciados), o impacto do fim do petróleo será amenizado por quantidades relativamente boas de energia eléctrica oriunda das suas centrais nucleares. Outros nem tanto…

Por outro lado as nações europeias não entregaram completamente em regime de outsourcing a agricultura e as pescas, nem derrubaram os tijolos da província, desertificada embora: recuperar a organização social descentralizada será infinitamente mais fácil que nos EUA, bem como reaprender a lançar sementes e a vê-las crescer regadas com água em vez de petróleo.

O espectáculo da guerra é-nos servido emoldurado em “princípios” e em “ética”, formatado em “lados” pré-fabricados para nos facilitar a opção. Dou a razão a Bush ou ao Bloco de Esquerda, sou pró-israelita ou estou pelo Hezbollah — é tudo o que se espera que diga o tele-espectador, com um medidor de opiniões à espreita para “dizer” aos políticos para onde vai a onda que eles têm de surfar para não se afogarem.

O que tem isso a ver com a realidade (ou as realidades, fechando o círculo com VPV) desta guerra?

Nada. A onda vai, inexorável, abater-se sobre a praia, as escolhas não se fazem agora. Eu não escolho lado nesta guerra porque na verdade não tem lados. É uma guerra fora do tempo cuja vitória será sempre de Pirro e cujo desfecho não adiantará ou atrasará nada pois em vinte anos, máximo, a fonte seca e os camelos voltam.