Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de outubro de 2008

Portátil Magalhães: a internacionalização de um sucesso

Como escrevi em crónica no Expresso multimedia publicada aqui em 27 de Setembro e mais tarde republicada no Certamente! (link), o portátil Magalhães é uma verdadeiro caso de sucesso da política e da indústria portuguesas. Um dos raros casos de sucesso, o que é mais uma razão para o contentamento generalizado que lhe tem sido dispensado.

Mesmo o blá blá blá e a retórica da oposição ao governo, que, como lhe compete, instrumentalizou o caso para a rotina do ataque político, já deram lugar à conversa em torno dos pormenores do projecto. Tão embrenhada nos aspectos partidários do assunto, essa oposição (e pintaínhos adjacentes) só mais tarde percebeu que se tratava de um acontecimento extraordinário — e como tal merecedor de uma atenção extraordinária, que passou então a dispensar-lhe, seguindo a par e passo o avanço do Magalhães, nomeadamente a sua internacionalização.

O portátil Magalhães cumpre o seu quinhão de fado português. Dos ciclistas aos futebolistas passando pelos escritores, investigadores e até, mais recentemente, políticos, tudo o que de melhor temos obtém fora de fronteiras o reconhecimento do sucesso que lhe é sonegado dentro das ditas.

Não posso deixar de escutar atentamente as críticas que defendem que as escolas básicas (e não só) têm outras carências mais profundas, que deveriam ter sido contempladas antes da distribuição de portáteis (aqui). Se eu for colocar questões aos responsáveis políticos deste sucesso, tramá-los-ia com uma meia dúzia de aspectos que me parecem fracos, a começar pela ausência de programas e em que medida isto se relaciona com uma vaga de fundo para tornar o professor num ponteiro dos powerpoints puxados dos sites da indústria da educação: as empresas que já controlam o espantoso, maravilhoso negócio dos manuais escolares e que estão nos bastidores a puxar cordelinhos a ver quem consegue amarrar mais depressa o Estado a um contrato leonino.

A mim preocupa-me mais o assalto dos privados aos dinheiros públicos que os erros de gestão destes. Que querem — há gostos para tudo. E, assim como assim, e como lembrava José Alberto Carvalho num contexto semelhante, há 2 ou 3 semanas, o escrutínio sobre o Estado já é grande, mas ninguém parece interessado em escrutinar os privados que o parasitam, pressionam e enganam.

Outra pergunta que faria: porque não dignificam antes o professor, em vez de continuarem a remetê-lo ao papel de contínuo, dando-lhe formação informática e preparação e metodologia para o ambiente (in)formativo reticular em que os alunos hoje vivem?

Mas continuo a achar que é preferível distribuir o que se tem e pode — ferramentas informáticas indispensáveis no mundo do século XXI — do que o que não se tem nem pode.

Longe do espartilho partidário que desde o início marcou a conversa sobre o portátil Magalhães, a verdade permanece esta. Em termos do ensino, são mais (e de maior qualidade) as vantagens que as desvantagens (as críticas podem ser supridas independentemente do Magalhães). Não ser o que as escolas mais precisam, é um argumento óptimo, e útil, para pressionar o Estado a dar maior atenção às escolas — mas não serve de argumento contra o Magalhães.

Em termos da intervenção do Estado, mais vale usar algum dos mecanismos de financiamento ao dispôr do que perder meses com um debate público sobre qual deles usar. Recordo que esta é, nitidamente, uma daquelas decisões que são escrutinadas pelos técnicos e que só no fim de uma legislatura devem merecer o balanço da opinião pública. Não estamos a falar de uma política de fundo da Educação, de uma questão social como o aborto, ou do maior ou menor envolvimento do Estado na economia.

Em termos da economia, é cada vez mais clara a dimensão de sucesso. Tirando o futebol, não estou a ver mais nenhum produto produzido pela indústria nacional este século que tenha provocado a cobiça internacional, dispensando, até, as promoções e feiras com que o Estado tenta, à custa de milhões de retorno dificilmente mensurável, salvar algumas indústrias e relançar outras.

Paulo Querido, jornalista