Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de março de 2008

Explicações para a queda do Sapo no ranking da Internet

Armando Alves publicou no A Source of Inspiration um comentário ao top 100 dos domínios mais acedidos em Portugal, segundo o Alexa.

O Alexa está longe de ser a melhor fonte — mas é a melhor fonte independente disponível.

O Armando diz isto, e diz com toda a razão, pelo que eu faço coro.

Recomendo a leitura dos pertinentes palpites de Armando Alves, arrisco-me a dizer, os certeiros palpites, e do que o impressionou destaco:

Repito: o Alexa está longe de ser a melhor fonte, mas é a melhor fonte independente disponível. Confio mais depressa na falta de representatividade do Alexa, que ao menos mede as tendências de uma forma imparcial, do que na caixa escondida da métrica da Marktest, que estranhamente monopoliza o seu mercado. (E não vale a pena mencionar os números apresentados pelos operadores quando se dão a esse trabalho, porque não é com esses gráficos de marketing que são tomadas as decisões.)

Já há algum tempo que andava para escrever sobre isto, mas devo ao Head Of Interactive da DraftFCB e à sua análise o estímulo para o fazer. O que se segue deve ser lido no quadro da súbita fome do Sapo pelos blogues “de referência”, depois de 3 anos a importar-se apenas com a quantidade do user-generated content, lance importante para manter os clientes dentro de portas em 2003 e 2004, mas que se revelou um fracasso a prazo.

Dois quadros e algumas interpretações.

Neste primeiro quadro temos um comparativo nacional entre Sapo, IOL, Clix e AEIOU.

Saltam à vista duas tendências:

  1. O Sapo tem um domínio claro que foi reforçando e consolidando ao longo dos últimos cinco anos.
  2. Depois de uma subida vertiginosa nos anos dourados de crescimento da banda larga, que tapava a ausência de estratégia para a web (usada como um meio e não pensada como um fim), o Sapo tem vindo a cair desde o início de 2007. Situa-se hoje em níveis semelhantes aos registados no final de 2006 e apenas um pouco acima dos níveis de 2003.

Ou seja, apesar da imensa força comercial, a marca tem vindo a perder os “favores” dos seus próprios clientes, que vão progressivamente procurando as páginas fora do domínio sapo.pt – a despeito de todos os esforços e para os manter dentro da sua rede (e poupar nos custos de tráfego, que é o principal negócio do Sapo).

Se o número de clientes aumentou, se o tráfego disparou e se a quantidade de horas gastas a navegar e a usar serviços web tem vindo a subir, onde estão as pessoas?

A resposta não está no quadro nacional, pois que o Sapo nunca perdeu para os seus concorrentes, que optaram por uma política de follow the leader em vez de procurarem a diferenciação. Olhemos então para outro lado.

No segundo quadro reparemos não na diferença do Sapo para os gigantes Blogspot e Wikipedia, que é natural, mas nas curvas: o crescimento explosivo dos serviços americanos, consentâneo com o que sabemos sobre o aumento do número de pessoas e dos seus gastos online, contrasta com as linhas do Sapo (a deste quadro é tornada flat pela escala).

Em síntese: o Sapo está a perder tráfego, o que significa que deixou de ter a capacidade de reter os clientes do ADSL e do Cabo.

Esta mudança pode, ou não, corresponder à possibilidade de uma mudança de paradigma. Inclino-me mais para o não – e não o digo pelo Sapo, que tem a capacidade de leitura e reacção, mas pela inacção dos seus concorrentes nacionais e pela incipiente atitude dos grupos que continuam a deixar escapar a revolução da web social: os grupos de media.

O Sapo aprendeu a amarga lição de 2007: os conteúdos indistintos não fixam os clientes. Na falta de mais marcas de media e suas páginas para assimilar e inchar, virou-se para o conteúdo gerado por utilizadores com prestígio acumulado – uma espécie de micro-marcas de media, se quisermos.

Em desespero de causa, recorreu mesmo ao conteúdo gerado fora de Portugal: iniciou uma versão local da Wikipedia tomando como partida dezenas de milhar de páginas prontas e absorvidas num clique (o que é legal e até recomendado pela Wikipedia, note-se). O resultado foi, infelizmente, um flop: sem valor acrescentado digno de nota, os utentes preferem o original à cópia e continuam a ir à Wikipedia.

Por outro lado, provou um pouco do veneno que foi servido internamente à concorrência: está condenado a número dois (ou três, ou quatro) em todos os serviços da web 2.0 que apressadamente abraçou.

Julgo adivinhar em raros sinais, como o último Codebits (um evento para captar talento entre os jovens que gostam de programação e do cheiro dos bits), a movimentação do simpático batráquio no regresso ao seu charco de origem. Na restante paisagem nada mexe – e a janela de oportunidade não fica aberta para sempre.