Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de setembro de 2008

Viva o Magalhães! (ou: qual é o futuro para um país moitaflorado?)

Eestou cansado de ver a campanha contra a iniciativa do computador portátil Magalhães. Sem tirar o mérito e a oportunidade a algumas críticas ao processo, tenho lido demasiado lixo e atoardas, e dos media ao blogues poucos se safam. Estou indignado.

Uns (os media) insistem, medrosos e maricas, em dar as notícias pelo lado picaresco da coisa: o controlo parental, um tolice desmontada no Arrastão (ler O porco do Magalhães)

Outros (a maioria dos bloggers que reproduzem de cor) perdem-se a discutir os acessórios do suposto espectáculo do PM e não olham de frente para a excelente iniciativa.

Algum, tímido, debate sobre a escolha do modelo (o da Intel não é propriamente o único neste nicho de mercado potencial) faz sentido. Mas esse é a gota de água num oceano de má língua que tem por único fito afogar o governo. E, no caso da agência unipessoal de comunicação em campanha contra o Governo, é ainda pior que má língua: o dono da agência levanta uma cortina de fumo sobre as televisões e instrumentaliza os seus correspondentes na birra privada contra a RTP.

Ora, eu não sou salva-vidas de ninguém — mas esta iniciativa tem mais méritos, bastante mais méritos, que deméritos. Ao menos aqui José Sócrates sai bem na fotografia: não se trata de um projecto de papel, ou feito para agradar às cliques políticas, trata-se de algo urgente e vital para uma das principais necessidades do país: a educação em tecnologias de informação e conhecimento.

Eu diria que a nossa relação com o futuro da comunicação se moitaflorou: vivemos obcecados pelo lado negro das coisas, somos regidos pelo medo e pelo pavor. Um computador para os alunos do primeiro ciclo não é recebido como uma ferramenta essencial que chega, finalmente, ao futuro do país, mas olhado desconfiadamente como um canal para o pior do humano. Não queremos pensar que o miúdo vai brincar construtivamente com a sua futura prancha de desenho, como brinca com feltros — preferimos tremer de medo só de pensar que pode cair nas mãos das redes pedófilas, assassinas ou, na melhor das hipóteses, pornográficas.

É curioso: pensamos que os miúdos vão usar o computador à nossa (falo em abstracto) imagem e semelhança, isto é, vão usar o Google para p0rn, o Internet Explorer para ver gajas nuas e o sistema operativo para instalar todas as tralhas que nos enviam. Somos incapazes de pensar que eles descobrirão as suas próprias utilizações: conversar com os amigos e colegas, trocar informação, pintar, escrever, fazer contas, arquivar e ordenar o que vão escrever, pintar, idealizar. Alguns até aprenderão a — horror! — programar o computador: para fazerem os seus próprios jogos, pregarem uma partida ao amigo chato que interrompe os serões, puxar as músicas à noite quando a míngua de banda que o download provoca não vai afectar ninguém. Ou (para a Glória Eterna Entre Os Colegas) conseguir aceder ao computador da escola!

Nãp pensamos nas vantagens para eles (e para o futuro do país — ou já desistimos deste?). Pensamos nas nossas guerrinhas parvas, na nossa vidinha, no nosso desleixo enquanto pais (repetindo o Daniel Oliveira: só há um controlo parental: o controlo parental), ou, se somos sérios, pensamos que era melhor debater as opções, talvez o OLPC fosse mais indicado, e porque venceu aquela empresa e não outra.

(segue)