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Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de setembro de 2009

Websites de empresas portuguesas não cumprem acessibilidade

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Uma entre as mil maiores empresas portuguesas cumpre regras de acessibilidade no seu sítio Internet. É a principal conclusão de um estudo realizado pelo Grupo Permanente de Negócio Electrónico da APDSI – Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação, divulgado esta semana.

O melhor resultado do estudo foi conseguido pelo sítio Internet da Caixa Geral de Depósitos, que cumpria dois dos três níveis de prioridades internacionalmente definidos. De sublinhar que a plataforma concluiu entretanto o processo e hoje já cumpre os três níveis necessários para garantir a completa acessibilidade da sua morada electrónica.

O estudo concluiu que a esmagadora maioria das maiores empresas nacionais não cumpre as regras de acessibilidade definidas pelos organismos internacionais, no sentido de assegurar que as pessoas com necessidades especiais possam usar a Internet sem problemas ou restrições de navegação.

A análise revela que, à data do estudo, nenhuma das empresas analisadas respeitava nos seus sítios de Internet o nível máximo de acessibilidade definido de acordo com as recomendações internacionais do World Wide Web Consortium (W3C).

Neste Ponto de Situação à Acessibilidade Web das Maiores Empresas Portuguesas, seleccionadas de acordo com a listagem do Instituto Nacional de Estatística publicada em 2007, conclui-se ainda que só 73 empresas cumpriam o nível mínimo de acessibilidade dos três propostos pelas directivas.

777 empresas em análise

Em análise estiveram efectivamente os sítios Web de 777 empresas. À data de recolha dos dados – durante o ano passado – o grupo deparou-se com a impossibilidade aceder aos sítios Web de 172 das maiores empresas portuguesas, ou porque estes não existiam, ou porque estavam indisponíveis para manutenção. Outras 51 moradas Web foram desenvolvidas sobre tecnologia que não permite aplicar ferramentas de teste automático de acessibilidade, ou sequer cumprir as normas internacionais.

Os resultados apurados resultam unicamente de testes automáticos realizados com recurso à ferramenta de desenvolvimento espanhol Taw3, certificada pelo W3C. Em cada sítio foram analisadas 30 páginas tendo como referencial as recomendações WCAG 1.0.

Foi através desta ferramenta que foi possível verificar que, no que se refere à prioridade 1 definida nas normas do W3C – a mais crítica -, 463 empresas encerravam entre 0 e 250 erros nos seus sítios Web. 120 Exibiam mais de mil erros.

O estudo fornece ainda alguns dados relativos à distribuição por sectores de actividade (de acordo com o Código de Actividade Económico) das melhores e piores práticas. Como a representatividade dos vários sectores de actividade entre as mil maiores empresas portuguesas é distinta, os resultados devem ser apreciados com reserva. É no entanto visível que o sector da Agricultura se destaca pela positiva com um número médio de 10 erros por empresa, para o nível 1 de acessibilidade, 223 erros para o nível 2 ou 115 erros para o nível 3, o que constitui os melhores resultados em termos de sectores. Contudo, a amostra é apenas composta por 5 sítios Web.

O sector mais representado no estudo é o do comércio automóvel que, para os três níveis de acessibilidade analisados, se encontra sensivelmente a meio da tabela, no que refere aos treze sectores considerados.

Falta de consciência

Ramiro Gonçalves, Docente e Investigador do Departamento de Engenharias da UTAD, que liderou o grupo responsável pela realização do estudo, sublinhou na apresentação do documento que o grupo procurou apurar as razões que justificam uma aposta tão deficiente das maiores empresas portuguesas na acessibilidade das suas páginas Web.

Estes contactos permitiram concluir que as razões são de vária ordem e para as colmatar o grupo elencou um grupo de 10 recomendações que estão publicadas no sítio de Internet da APDSI, com o resumo do documento.

Um dos aspectos fortemente sublinhado pelo coordenador do estudo é a falta de consciência das empresas para o potencial desperdiçado quando optam por uma plataforma online não acessível, ou quando os esforços dos seus fornecedores nessa área – como quem contratualizam uma presença acessível – são mal sucedidos.

Constam do estudo e foram sublinhadas por Ramiro Gonçalves na apresentação do documento, as conclusões de um estudo realizado no Reino Unido a propósito do potencial dos cidadãos com necessidades especiais na Internet. O documento, divulgado no ano passado, conclui que este grupo representa um potencial económico para o mercado da Internet da ordem dos 120 biliões de libras.

Pouca sensibilidade para o tema, falta de informação e dificuldades de implementação são também aspectos que ressaltam dos contactos realizados pelos autores do estudo junto de gestores das empresas avaliadas.

O Grupo de Negócio Electrónico da APDSI está agora a aplicar a mesma metodologia de estudo às mil melhores PMEs nacionais, escolhidas através da lista publicada pela revista Exame.

O trabalho ainda não está concluído mas já foi possível encontrar resultados mais satisfatórios entre este universo. Por questões técnicas ou tecnológicas só estão disponíveis para análise efectivamente 649 sítios Web. Nestes, um é totalmente acessível. Um outro cumpre dois dos três níveis de referência e 145 cumprem o nível mínimo de acessibilidade.

O Grupo tem ainda em agenda uma análise à Acessibilidade Web dos sítios da Administração Pública – obrigados pela legislação a cumprir pelo menos o nível básico de acessibilidade -, uma análise sectorial e uma nova análise aos sítios das 1.000 maiores empresas nacionais.

A repetição da análise às mil maiores empresas portugueses terá por base a nova geração de normas do W3C (WCAG 2.0) aprovadas em Dezembro do ano passado e que procuram endereçar algumas das principais questões apontadas pelas empresas como dificuldades para incorporar a versão 1.0 das recomendações e assegurar a acessibilidade dos seus sítios Web.

Números da União Europeia (2002) indicam que na região existem 37 milhões de europeus com algum tipo de deficiência. Em Portugal os dados do INE (2002) mostram que 634 mil pessoas possuem deficiência.

As normas do W3C indicam no nível 1 um conjunto de pontos que os responsáveis pelo desenvolvimento de sítios Web têm absolutamente de cumprir, sob o risco de um ou mais grupos de utilizadores ficarem impossibilitados de aceder à informação aí contida.

O nível 2 diz respeito a um conjunto de regras que devem ser cumpridas e o nível 3 a regras que podem ser cumpridas. O seu nível de criticidade para o acesso de pessoas com necessidade especiais está organizado de forma descendente.

Quando um sítio Web é identificado com o nível de conformidade A cumpre todos os pontos de verificação referentes à prioridade 1. O nível de conformidade AA, significa o cumprimento integral das prioridades de nível 1 e 2 e o nível de conformidade AAA significa o cumprimento integral dos pontos referentes aos três escalões de prioridades.

Cabem ainda, nos vários níveis, recomendações relativas ao tipo de letra que os sítios Web devem usar, ao tamanho e cor, bem como recomendações relativamente a tecnologias usadas, entre outras.