Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de setembro de 1996

30 mil lêem jornais diários na Net

A 27 de Julho de 1995 o Jornal de Notícias tornou-se no primeiro jornal português com uma edição diária na Internet. Seguido ainda no Verão pelo Público, com um projecto muito badalado. Em finais de Dezembro foi a vez do Diário de Notícias, mais «low-profile». A antiguidade é um posto, até na Net: com 30 mil «hits» (toques) diários na página de entrada localizada em http://www.jnoticias.pt, o JN será neste momento o líder de audiência neste novo mercado. «No Verão, como é normal devido às férias, descemos para uma média de 23 mil», acrescenta Fernando Martins, da Direcção do JN. A concorrência não revela os seus números, mas o EXPRESSO apurou que andarão bastante abaixo. O que, nesta altura, é irrelevante: o imaturo mercado cresce a uma velocidade louca e tudo pode acontecer.

O potencial de leitores de Língua Portuguesa na Internet rondará actualmente os 300 mil, devendo duplicar nos próximos 18 meses. Em Portugal há 110 mil cidadãos com ligação à rede das redes e todos os dias cerca de um quarto navega pelo World Wide Web. Se estes serão os números mais interessantes do ponto de vista da publicidade, os editores não descuram os leitores de fora. Estudantes portugueses (ou de Língua Portuguesa) de universidades estrangeiras, emigrantes e curiosos de outras línguas são os melhores leitores destas edições, que lhes permitem um contacto próximo com o dia-a-dia de Portugal que não teriam de outra maneira. Representam de 20 a 30 por cento da audiência, segundo estimativas do EXPRESSO - mas são fiéis.

Um dos objectivos do Jornal de Notícias foi precisamente «alargar significativamente o alcance do jornal aos leitores da diáspora e, em Portugal, a camadas onde o JN tem menor penetração», explica ainda Fernando Martins. O diário portuense assume declaradamente uma atitude comercial, até de alguma agressividade, e deverá tornar-se no primeiro «content provider» português a obter receitas de publicidade. Já tem anúncios na sua página de entrada e as secções de classificados são um sucesso.

Os três diários seguem a mesma filosofia de aproximação à Internet, embora com ligeiras diferenças. Todos disponibilizam a edição integral, respeitando a hierarquia do papel, e nenhum apostou numa edição específica para a Net. No Porto a edição digital é disponibilizada por volta da meia noite, mesmo antes da edição em papel seguir para os postos de venda. Em Lisboa o Público fica «on line» às 7 horas e o DN prefere «sair» um pouco mais tarde, às 9 horas. O JN possui uma equipa de dois jornalistas exclusiva da edição digital. O DN tem um editor e três elementos da Redacção que dedicam tempo parcial «mas significativo» à sua página em http://www.dn.pt, diz Andrade Costa, director informático e um dos responsáveis pelo «site».

Esquema semelhante tem o Público. Este diário mantém uma colaboração a nível de «links» com a rede World Media e serviços especiais, como o Projecto Público na Escola. Nenhum possui ainda servidor próprio, mantendo-se alojado em redes exteriores, mas todos planeiam tê-lo. E os custos dos projectos são por enquanto «praticamente ridículos» (Fernando Martins), na base das poucas centenas de contos mensais. Custos amplamente recompensados pela intensa «interacção com os leitores» (Andrade Costa).

Menos conseguidas são as edições digitais dos diários Correio da Manhã - fraco peso editorial -, A Bola e Serviço de Apontadores Portugueses 14 jornais regionais, desde o Açoriano Oriental ao Correio do Vouga, passando pelo Região Sul (Algarve). E eram nove os títulos de jornais comunitários, com destaque para os portugueses no Canadá: só em Toronto há três edições digitais!

Perdidos na memória estão os tempos em que o semanário Blitz se tornou no primeiro jornal português a ter uma edição digital, que os leitores podiam consultar (e guardar) nos monitores dos seus PCs. E no entanto foi apenas há «dois anos e meio» que o entusiasmo levou António Saraiva a montar, penosamente, essa edição histórica. Continha todos os textos do jornal em formato txt e podia ler-se «on line» na BBS A Rede ou «off line», depois de puxar o respectivo ficheiro. Percussor, o Blitz foi igualmente o primeiro a instalar-se na Internet. E o primeiro a perceber que o sucesso passa pela interactividade com os leitores. «Recebemos centenas de e-mails por semana», confirma o responsável pela edição. «A maior parte são pedidos de informação. Mas também nos rectificam erros e dão pistas para investigação». O «ancião» Blitz é o jornal que mais próximo se mantém da cultura Internet.