Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de setembro de 2009

Papel do jornalista: dirigir a narrativa

jornalismo

Quais as razões para ter optado por uma carreira como freelancer e não por algo mais seguro estando vinculado a algum meio de comunicação?

Em 30 anos de carreira, tive vínculo a vários meios de comunicação em diferentes alturas. Sou free lancer há poucos anos: menos de 3. A razão tem mais a ver com questões do mercado do que com as minhas opções pessoais.

P – Quais as vantagens?

R – Maior liberdade de movimentos. Não estar sujeito aos ambientes fechados das redacções, onde as questões pessoais por vezes se sobrepõem às razões editoriais.

P – E as desvantagens?

R – Trabalhos em equipa quase desaparecem. Reportagens multi-disciplinares ficam muito difíceis. Perde-se alguma identidade com o processo produtivo. Eu, por exemplo, gostava de acompanhar o fecho do jornal até à gráfica e agora mesmo que o quisesse não poderia.

P – Ciberjornalismo é sinónimo de nova era do jornalismo?

R – Em si próprio, não. É apenas mais uma disciplina, resultando da evolução da sociedade. O jornalismo, como tantas outras actividades, vem-se multiplicando em formatos e especializações à medida que a sociedade fic mais complexa. E os meios se multiplicam.

Acontece é que o ciberjornalismo é contemporâneo de mudanças mais importantes ao nível da economia dos media. Sendo por vezes, e erradamente, interpretado como causa dessas mudanças.

P – Optou por este meio por gosto próprio?

R – Sim. A extraordinária capacidade da informática para o processo de recolha e processamento de informações atraiu-me desde o surgimento da micro-informática. Ainda eu era estagiário. Mas como tive de incorporar essas ferramentas e processos sozinho, algumas vezes perante a desconfiança, até, da Redacção, só pude fazê-lo mais tarde, quando já tinha maior segurança e uma carreira lançada.

P – Considera o ciberjornalismo um novo veículo de informação em expansão?

R – Não. O ciberjornalismo é apenas um processo. O uso de ferramentas e métodos que não existiam antes.

P – É um grande apologista do uso do twitter. Consegue numa frase simplificar todo o seu conceito?

R – Ocorre a alguém dizer: “é um grande apologista do uso do telefone”? O Twitter é uma nova layer, ou camada, tecnológica que permite o processamento e filtragem de informação geograficamente distribuída em tempo real, em directo. Com a particularidade de permitir também a difusão, e não apenas a recolha.

P – Porquê o Twitter e não outro meio como Facebook, MySpace, etc?

R – Uso o Twitter como uso o Facebook como uso outras ferramentas menos conhecidas, mas nem por isso menos importantes no espaço que ocupam nos meu dia a dia profissional. Do ponto de vista do jornalista, que é o meu, as redes sociais são audiências diferentes — enriquecidas, úteis, bi-direccionais. Socializo pouco, e só socializo na medida em que essa socialização está ligada ao que faço e ao que me interessa.

P – O que muda com o Twitter no mundo do jornalismo?

R – Muda a percepção do mundo, a montante (fontes) e a jusante (audiências). Mas muda também o ambiente produtivo, na medida em que o Twitter também é um meio conversacional. Muda o impacto das pessoas no processo jornalístico, que é ampliado. Muda o potencial de envolvimento do jornalista (e do órgão que represente) com a audiência. Muda a narrativa, tanto na sua elaboração como na sua difusão. É preciso compreender que o papel do jornalista é o mesmo — dirigir essa narrativa de forma a ficar o mais perto possível do facto, da notícia, da explicação do acontecimento. Já não tem de fazer tudo sozinho, porém. Agentes e público constroem em parte essa narrativa, o jornalista tem o papel de “colar” o relevante e de identificar as relações entre factos.

P – A quantidade de informação que circula na internet, de acesso fácil não estará a ditar o fim dos jornais?

R – Não é a quantidade que dita o fim, mas o acesso livre às fontes. Os jornais existiam porque era preciso levar as informações de um local para outro. O negócio era o transporte, não propriamente a notícia. Não sendo o transporte mais necessário, o negócio extingue-se. O fim das geografias não foi ditado pela Internet, nem sequer pela abundância de informação. O fim começou com a televisão por cabo. A Internet somou-se, apenas.

P – É a mesma geração que lia jornais diariamente que agora frequenta a internet em busca de informação?

R – Penso que sim, na sua grande maioria. As pessoas que compravam os jornais recebem hoje informação melhor, no sentido de mais seleccionada e com menos ruído acessório, através de outros suportes, quase todos eles ligados em rede.

P – A internet como um centro de informações tem tendência a crescer em conteúdo? Ou estará inclinada para uma maior quantidade de utilizadores mas com mais matéria irrelevante?

R – A Internet é uma rede de redes. Cada dia que passa, mais “centros de informação” se ligam a ela, quando não nascem dela, tornando-a maior. Assim, tende a crescer tanto na quantidade de conteúdos disponíveis, como na atenção para eles (olhos humanos). Os problemas estão todos no “mercado” — esse “local” onde quem procura encontra quem forneça, e quem tem para oferecer encontra quem precisa. Para tornar a coisa mais engraçada, “oferta” e “procura” são papéis que tendem a concentrar-se nas mesmas pessoas. Isto é: consumidores e produtores misturam-se.

Entrevista dada a Mónica Silva, à data (Julho de 2009) estudante no primeiro ano do curso de Ciências da Comunicação