Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de junho de 2008

A propósito do Euro 08: o discurso (diferente) do "jornalismo desportivo"

Nem de propósito, em tempos deste Euro 08 que trouxe de novo o cíclico debate sobre os excessos de linguagem (e não só) dos jornalistas e outros agentes dos meios jornalísticos e para-jornalísticos envolvidos na cobertura dos grandes acontecimentos sócio-desportivos. Fui buscar ali ao baú uma entrevista que uma estudante me fez há coisa de uns 2 meses, por e-mail, sobre as diferenças do jornalismo dito desportivo.

Segue pouco editada, os negritos foram metidos para esta versão.

P: Adjectivação do jornalismo desportivo – expressões: o porquê de ser assim, deixa de ser menos sério? Porque é que o resto do discurso jornalístico não pode ser assim? Poderá ou dever-se-á procurar um equilíbrio?

R: A realidade que os jornalistas ligados ao desporto (não há jornalistas desportivos) observam é uma realidade plena de emoções, que vive delas e das reacções das pessoas. Penso que radica aí a maior adjectivação — precisamos de um vocabulário diferente, eventualmente mais rico e solto.

Embora surja justamente associada a ele, a adjectivação não é forçosamente sinónimo de mau jornalismo. É claro que se deve procurar um equilíbrio: o excesso de adjectivação, a adjectivação mal feita, desequilibram o discurso jornalístico, criam demasiado ruído na comunicação.

P: Mercado português – três jornais, três grandes clubes: estranhíssimo, como é possível? Possíveis explicações?

R: Não acho estranho. É preciso recuar muito no tempo, ao Portugal de Salazar, dos anos 40 e 50 e mesmo 60. Recuar a um panorama de informação muito estreito e controlado num país com elevadas taxas de analfabetos. Desenvolve-se alguma pujança nos jornais desportivos em parte porque são menos controlados pela polícia política, em parte porque são mais fáceis de ler, em parte porque acabam a atrair profissionais muito bons, porque são jornais que podem pagar salários.

O papel dos jornais desportivos na formação de jornalistas nunca é devidamente realçado e no entanto existiu. Muitos dos melhores profissionais foram “feitos” nesse órgãos de Comunicação Social, onde a exigência era grande e o aperto político menor.

Mais tarde, depois da revolução de 74 e da alfabetização, o fenómeno reforçou-se.

Ao contrário do que se quer fazer crer, o fenómeno não é exclusivo de Portugal. As diferenças, cá, prendem-se com a maior autonomia dos projectos, talvez por causa do passado remoto a que já aludi, e com a geografia. França, Itália, Espanha, todos têm um grande diário desportivo de referência e tiveram-no antes de Portugal. Por outro lado, como são países grandes, têm imprensa local mais dinâmica, incluindo jornais de desporto. Se transpusermos para Portugal, podemos considerar o mais antigo dos jornais desportivos como o diário nacional e os outros dois como orgãos regionais (um deles, aliás, é-o manifestamente).

Em Inglaterra e nos outros países europeus os diários possuem grandes secções desportivas — o que bloqueou o surgimento de jornais dedicados. Mas têm muitas revistas, por exemplo, e excelente literatura em maior abundância que nós.

P: Problemas em realizar peças sobre outros desportos. A necessidade de o desporto ter bola?

R: Não. Não vale a pena complicar o simples: deve-se apenas à falta de públicos. Eu fiz jornalismo no desporto e cobri alguns dos desportos de menor projecção (com e sem bola), como a vela (elites [e também o desporto que eu mais pratiquei, que mais gosto e onde cobri competições de prestígio secular, como a America's Cup]), o ciclismo (população interior, competição sazonal), o ténis (consumido pelas classes médias abastadas que despontaram nos 80, tiveram apogeu nos 90 e hoje estão em retracção). Isto além do futebol. O que é notícia para 100 pessoas acaba por ultrapassar, em importância, o que é notícia para 10 ou para 5. Isto para um órgão de comunicação social não-especializado.

(Na foto: um barco da classe Finn, que tantas saudades me deixou. O instantâneo fixa um dos momentos altos da vela em geral, e que no Finns é inebriante, dispara a adrenalina: o plananço, altura em que o barco atinge a maior velocidade, metade do casco fora de água, o patilhão a ver-se à luz do Sol, o rasto de espuma que revela a dimensão da velocidade a olhos leigos. A altura que, em regata, pode decidir a vitória, a recuperação de um mau lugar — ou o desastre numa fracção de segundo. Dá jeito alguma adjectivação que ajude a transmitir o que o momento comporta e o que o Finn representa. Uma máquina de divertimento, um clássico de elegância, um puro sangue das ondas, uma refinada peça da arte de produzir embarcações. E no entanto a maioria verá ali apenas um barco.)