Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de maio de 2010

Caso da notícia falsa do adepto “morto”, ou o problema da cadeia cega

O caso estoirou na tarde de sexta-feira em Lisboa, quando um jornal de referência deu uma notícia citando um canal de televisão de um clube de futebol e onde se avançava a morte de um adepto desse clube na sequência de confrontos na cidade do seu principal rival. Enquanto alguns leitores críticos de jornais (sim… há disso…) desconfiavam, os jornalistas dos outros jornais retransmitiam a notícia sem a confirmar.

Há aqui um problema, claro. É o problema da cadeia cega: ao contrário desse punhado de leitores críticos, que aliás os jornalistas historicamente se esforçaram por ignorar, os jornalistas confiam uns nos outros. É um automatismo: quando o Público dá uma notícia em que no antetítulo tem a palavra “confirmado”, eu automaticamente confio que o jornalista, ou jornalistas do Público confirmaram eles próprios a informação — e elimino as dúvidas que eventualmente a fonte citada me levantaria.

Não tem nada de mal. Ou por outra, desculpem o tempo verbal, atribuível à minha longa relação com esta indústria: não teve nada de mal durante décadas. As décadas em que o punhado de leitores críticos não tinha forma de se fazer ouvir — e se por acaso um deles conseguia chegar a um jornal concorrente, era demasiado tarde, transformava-se numa batalha entre jornais, morria aí. As décadas em que a lentidão da circulação da informação funcionava como uma espécie de manto sobre os erros cometidos no dia a dia das Redacções.

Na verdade, e como diz o Marco Santos em uma derrota para todos, “cometi o erro de «confiar»”. Por muito que os jornalistas, a começar pelos que têm maiores responsabilidades nas Redacções, e até direcções, não gostem, esta é uma verdade que enfrentam. Há cada vez mais razões para não confiar nas informações que saem dos jornais.

A explicação do Marco Santos (que é jornalista) colhe em parte, no meu entender: “este é o resultado do crescente desinvestimento nas redacções” diz.

É pois. Sobretudo nas redacções “do online”, que em Portugal é o parente pobre dos jornais, rádios e televisões, para não dizer o parente temido, até odiado pelas administrações e em especial por antigos capitães da indústria do jornalismo. É mesmo assim, de resto, que dizem: “do online”, com toda a carga pejorativa com que ouvi — e ainda ouço, de directores de jornais que se gabam a si próprios de referências — camaradas meus insultarem “os do desporto”.

Mas não é só. É preciso juntar-lhe mais razões.

No melhor pano cai a nódoa, ainda hoje. E continuará a cair. Porque o tempo, se era aliado do jornalista atirando os seus erros para debaixo do tapete, tornou-se agora seu inimigo. A velocidade a que hoje a informação circula ajuda ao erro. Destapar as redacções já é mau, substituir o pouco pessoal treinado em garantir e confirmar por novatos impreparados, é precisamente o oposto do que os tempos aconselham. Aqueles jornalistas rezingões, chatos como a potassa, que dizem aguenta aí e fazem mais um telefonema, davam bem mais jeito do que os pintos de aviário desejosos de brilhar — para o patrão, não para o leitor, que não sabem ainda quem é.

Depois há a outra história. A cadeia cega tem abrir os olhos. Os leitores, em especial aquele grupinho de críticos, são aliados da boa informação. Não são inimigos. Se quiserem, olhem para eles como os mineiros para os canários na mina. Se quiserem, olhem para eles como divindades e ofereçam-lhes travessas de fruta. Não me importa — desde que os ouçam, os levem em consideração. Os incluam no processo colectivo que é o jornalismo moderno.

Enquanto nas redacções portuguesas se tratar o leitor “do online” exclusivamente como o idiota útil que dá pageviews e clica nos anúncios, comenta (dá conteúdos de borla! E mais pageviews!) e bloga e envia fotografias (mais conteúdo grátis, miam!) e não se aprender nada com os seus gostos, gestos e tendências; enquanto não se recompensar o leitor exigente, estarão as marcas de jornalismo a dar mais tiros nos seus pés.