Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de maio de 2011

Conferências de imprensa vs. comunicados presenciais: chamar as coisas pelos nomes

É uma prática cada vez mais comum: convocar os jornalistas para lhes apresentar presencialmente uma comunicação. O facto de designarem tais eventos como “conferências de imprensa” justificar-se-á pela tradição, mas é uma designação errada. E aumenta desnecessariamente o atrito entre as organizações e os jornalistas.

Vem isto a propósito de dois acontecimentos recentes. A comunicação do Primeiro Ministro português, ontem, sobre o acordo com os negociadores internacionais da dívida portuguesa, e, em Espanha, de uma jornada contra as conferências de imprensa sem perguntas, aproveitando a boleia do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa para um ação centrada no Twitter com a hashtag #sinpreguntasnocobertura.

Só posso estar de acordo — e penso que nenhum jornalista poderá discordar — com o António Granado, quando interroga: uma “conferência de imprensa” (como lhe chamou o primeiro-ministro) sem fotógrafos (e já agora sem perguntas) é uma conferência de imprensa? Ou apenas a confirmação de que o jornalismo português está de joelhos?” (aqui).

É evidente que o post do António foi aproveitado pela blogosfera de direita e pelos adversários do governo, bem como por alguns neo-jornalistas (o neo-jornalismo está na moda; consiste em considerar que um jornalista isento é um jornalista que se declara à partida e publicamente como um persecutório inimigo do governo e da gestão pública e um aliado não menos confesso das força privadas e como tal Inerentes e Legítimas Detentoras Da Razão). Mas não nos detenhamos nesse apeadeiro.

O formato do comunicado é legítimo, em especial em alturas em que a demanda de informação chega a ser irracional, motivada por razões do mercado às quais a entidade que está a comunicar é alheia, e das quais tem o direito de se proteger. Como é legítima a aspiração dos jornalistas, sobretudo em momentos intensos, a terem interlocutores a quem colocar questões diretamente, sem a intermediação dos assessores e secretárias nem a gestão do tempo do lado do inquirido.

Portanto, mais imperioso se torna evitar equívocos. Uma conferência de imprensa é um evento aberto e sem limitações além das que decorram das condições geográficas e ambientais (uma sala para 100 pessoas não pode acomodar 200 jornalistas). Um comunicado presencial consiste de uma declaração, individual ou em grupo, feita nas condições determinadas pelo declarante.

A diferença entre um comunicado presencial e um comunicado de imprensa tradicional prende-se com 2 fatores. Procura maior relevância, destacando-se do fluxo normal de comunicados. E tem em vista proporcionar a captação de som e imagem de forma a ser reproduzido em direto.

Quando um líder político, do governo como da oposição (Passos Coelho também tem produzido comunicados presenciais para os quais os jornalistas são convocados como se se tratasse de uma conferência de imprensa), opta pelo comunicado presencial, deve identificá-lo claramente como tal. Cabe aos jornalistas decidir, em função dos seus interesses e disponibilidades, se cobrem ou não o evento mediático.

É importante adequar as disponibilidades. Por exemplo, para uma conferência de imprensa pode um órgão destacar uma equipa sénior e alargada, enquanto a cobertura de um comunicado presencial requer uma equipa mínima.

Considero que qualquer entidade tem o direito de usar as comunicações presenciais — e nao apenas essas: sou dos que acham que a Presidência da República, nomeadamente, tem sabido usar coerentemente os novos meios de comunicação, sem prejudicar minimamente a relação com os meios tradicionais.

Resumindo: uma conferência de imprensa é um evento produzido para os jornalistas, enquanto um comunicado presencial é uma forma de divulgar informações. Confundi-las é uma ineficácia que aumenta a frição.