Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de abril de 2011

Do jornalismo pago pelos impostos ao orientado ao lucro: resultados da evolução

Quando entrei para o jornalismo, em 1978, o jornalista tinha entre outras a missão de desmascarar as golpadas, descobrir as negociatas, informar sobre o que era do interesse do público. A sua origem não interessava: fosse o poder político, fosse o poder económico, golpes públicos ou privados, comia tudo pela mesma medida.

Sendo que na altura, em Portugal (como noutros países em épocas diferentes), a maior parte  do jornalismo produzido era financiado pelo erário público, a independência era um valor com um peso especial.

A indústria do jornalismo evoluiu muito nestas três décadas. Hoje, a maior parte da produção de jornalismo deixou de ser sustentada pelos fundos públicos e é orientada ao lucro. São visíveis algumas mudanças.

O conceito de independência mudou: espera-se que o jornalista se afirme independente de poderes que não têm sobre ele nenhum poder e espera-se que seja subserviente, conivente, ou no mínimo silencioso em relação a quem tem sobre ele todos os poderes.

Mudou também o objeto da sua missão: hoje o jornalista investiga (enfim, sentido lato) com profundidades muito diferentes consoante a origem da eventual notícia. O escrutínio do sector público é feito com grande empenho e o escrutínio do sector privado está negligenciado.

É, até, mal visto por alguns sectores com voz publicada, que se pronunciam sobre o exercício do jornalismo fazendo crer que escrutinam os escrutinadores, numa espécie de substituição dos organismos que têm essa função e que, por acomodação entre outras razões, foram perdendo importância. Esses sectores invocam o estatuto de consumidores para legitimar uma análise que vai muito além do produto consumido, enveredando pelos processos, dinâmica, sociologia e psicologia do exercício do jornalismo.

Em português simples: trata-se de pressionar e condicionar os jornalistas para que o seu produto reflita os desejos e ambições desses sectores. Esta pressão não é feita por lóbis de relações públicas, que, fazendo parte do ecosistema da informação, obedecem às lógicas e cursos, mas por cidadãos opacos e de intenções inescrutináveis, dada a forma como se apresentam (leitores/consumidores).

Há 30 anos, os jornalistas que serviram de modelo e de professores orgulhavam-se de serem profissionais independentes, até, das suas próprias convições pessoais. E não tinham de ser aprioristicamente contra ou a favor fosse do que fosse. Hoje há uma obrigação: os jornalistas têm de ser contra o poder político não só à partida como em todas as situações.

Um governante é culpado até manifestas e profusas provas em contrário, apresentadas por pelo menos 3 fontes idóneas e comprovadas. Um oposicionista (ou qualquer outra pessoa, exceto se for um cidadão estrangeiro acusado de homicídio) é apresentado como inocente por princípio.

Um governante é inquirido com métodos violentos e quase pidescos. Um político da oposição é convidado a exprimir os seus pontos de vista e raramente é rebatido (restam alguns jornalistas com coragem).

Eis os denominadores comuns do jornalismo português de hoje. O mercado de trabalho recompensa quem seja uma carraça para o governante, chato para o autarca, justo para os criminosos e submisso, respeitador e bem educado para todos os restantes.

Esta limitação da profissão molda os novos jornalistas: os sobreviventes farão uma informação mais à medida dos interesses privados que se foram metamorfoseando de interesse público ao longo destes anos.

(Atualização: embora a reflexão tenha incidido sobre a realidade que conheço menos mal, que é a portuguesa, aplica-se a outros países; pelos vistos no Brasil o mesmo tipo de problemas é sentido e há, até, alertas associativos que em Portugal não soaram: “Há no país uma ação permanente patrocinada pelos grandes grupos de comunicação para desqualificar o Jornalismo, confundindo propositadamente a produção de informação jornalística com entretenimento, ficção e mera opinião. Igualmente, a categoria dos jornalistas sofre ataques à sua constituição e organização“, escreveu a Federação Nacional de Jornalistas no Dia do Jornalista, 7 de Abril.)

Acresce que a lógica da concorrência entre os grupos agrava a situação. Sobretudo pelo lado do emprego. Mas não só. Vão-se tornando cada vez mais abundantes os casos de peças de informação que ignoram a realidade circundante para fazerem a apologia dos meios e recursos do grupo em que o meio se insira. No mundo antigo, em que os leitores/tele-espectadores estavam forçados à fidelização, esta prática tinha menor repercussão do que no mundo moderno em que os participantes nas narrativas de comunicação têm acesso alargado e os meios são ubíquos. Neste mundo, a prática é não apenas anacrónica: é esforço inglório e, na maioria dos casos, contraproducente.

Esta distorção geral da imparcialidade e da equidistância parece incomodar muito poucos ou ninguém.

Enquanto isso, e graças à quebra das barreiras de acesso à comunicação de massas, várias das funções do jornalista estão a mudar de mãos.