Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de dezembro de 2011

Estamos perante o desprestígio e decadentismo do jornalismo?

A decadência da atividade jornalística é uma das questões da atualidade e está sintetizada numa pergunta de Catarina Caldeira Baguinho, que puxei para título: Estamos perante o desprestígio e decadentismo do jornalismo?

(Imagem: pormenor da capa de Superheroes decadence, de Donald Soffritti)

A pergunta não fica sem uma resposta. Faz parte de um conjunto de questões que a jornalista me colocou para uma peça na Briefing a propósito da paga miserável com que algumas entidades estão a desconsiderar os jornalistas profissionais. A peça foi publicada com o título 800 caracteres por 0,75€? Não, obrigada!. Dada a pertinência do assunto, reproduzo abaixo o nosso diálogo.

P: Este é um outro exemplo da força que as redes sociais, neste caso o Twitter, têm. Será que as mesmas podem vir a ser fulcrais para fazer denúncias?

R: Têm esse poder. O que não quer dizer, longe disso, que sejam redes propícias à denúncia. Há casos que se tornam virais. Mas por cada caso que ganha consistência reticular, até ao ponto de sair da rede, há um número imenso de casos semelhantes que não chegam a esse ponto de tração.

Os mecanismos de apuramento e seleção são completamente diferentes mas o resultado é o mesmo; como os órgãos de comunicação social, as redes são lentes que detetam, isolam e promovem certas histórias à condição de notícias, entre um leque imenso delas. Passa-se que os mecanismos reticulares estão muito menos estudados.

P: Em Portugal, também são vários os sites onde podemos encontrar ofertas de “trabalho” semelhantes. Acha que, através deste exemplo, pode vir a acontecer o mesmo no nosso país, bastando apenas dar-se o “grito do Ipiranga”? Porque é que ainda não foi feito?

R: Já houve diversas denúncias no mesmo canal, o Twitter, de casos semelhantes em Portugal. Nomeadamente, “ofertas” de trabalho com promessas falsas, colocação em estágios não-remunerados que se eternizam ou são de elevada rotatividade, etc. Alguns ecoaram um pouco dentro da rede, mas nenhum foi isolado e promovido por ela ou fora dela. É pena, mas é assim.

Porque não aconteceu? Não é fácil um assunto ganhar tração num ambiente reticular e sabe-se ainda pouco sobre isso. Além do promotor inicial há que ver a qualidade das suas primeira e segunda redes. O momento em que a denúncia é feita tem também muita importância — a hora do dia e o dia da semana têm importância, mas acima destes itens estão as duas disponibilidades da rede: a da atenção e a da ação. Sem um bom índice de ambas, nenhum assunto ganha visibilidade.

P: Acha que este tipo de ofertas põe em causa o prestigio da profissão de jornalista?

Acho que já pôs. Mas enquanto ameaça ao prestígio da profissão, considero secundário o desprestígio pelo salário. Há outras circunstâncias de maior impacto, a começar pelo tipo e qualidade de jornalismo que se está a tornar padrão.

P: Acha que a facilidade que hoje em dia se tem em publicar algo online é a principal causa por o jornalismo se encontrar na situação em que actualmente está, isto é, os jornalistas, sobretudo os freelancers, não vêem os seus trabalhos ser devidamente pagos?

Não creio. É minha convicção que a dificuldade de colocação pelos free-lancers resulta de dois fatores principais. O primeiro: o cada vez maior aperto dos orçamentos disponíveis para os editores comprarem materiais. O aligeiramento de alguns jornais, inclusivé de marcas justamente tidas como de referência, é mais consequência que causa desse aperto.

O segundo fator é a quebra de barreiras: o negócio do jornalismo foi essencialmente um negócio de embrulho e transporte. A multiplicação de canais de rádio e televisão, por um lado, e desde há alguns anos a distribuição instantânea e mundial da informação desembrulhada (e em muitos casos desintermediada), provocaram uma mutação profunda, estrutural, na economia do jornalismo.

Os jornalistas estão apanhados no intervalo. Foram formatados para uma economia que não tem futuro e ainda não se “desformataram” para se prepararem para a nova realidade. A facilidade de publicação é um aliado do jornalista — assim ele a compreenda, aceite e abrace.

P: Como se podem contornar estes tipos de ofertas?

Recusando-as e procurando ofertas melhores. Há ofertas melhores, mesmo na zona dos conteúdos “ao quilo”, para encher sites e pendurar anúncios contextuais. Entre os três dólares por artigo e os 25 dólares, abundam as propostas de conteúdos de baixo teor noticioso; a faixa dos 10-15 dólares tem muita saída. Refiro-me a proposta honestas, que tratam o profissional com a cortesia adequada, não à desonestidade vexatória que se vê nalguns sítios de oferta de estágios.

Mais vale a um jornalista com dificuldades recorrer a trabalho deste tipo, de baixo valor mas que lhe deixa tempo e espaço pessoal para se valorizar, do que sujeitar-se às cargas de trabalho brutais e sem futuro que representam muitas vezes os estágios.

Há, também, que procurar ter a iniciativa. Há mais oportunidades de construção de novas publicações, há mais necessidade das aptidões jornalísticas, do que empresas de media para as aproveitar.

P: Estamos perante o desprestígio e decadentismo do jornalismo?

Diria que estamos a viver uma mudança que é estrutural tanto no lado económico da atividade como no próprio produto jornalístico — que função cumpre, o que dele esperam os outros seres (humanos e digitais) que compartilham o ecosistema informativo. Não creio que o facto de algumas marcas de jornalismo optarem por processos autofágicos e outras pelo suicídio por asfixia lenta nos deixe livres para concluir que esses são desígnios de toda a indústria do jornalismo e das profissões associadas.

O jornalismo é um ecosistema informativo e de entretenimento que se tem vindo a tornar cada vez mais complexo. Assistiremos, sim, à divisão. Algumas marcas vão assumir como totalmente comerciais as suas operações, usando os poderes de construir e destruir à luz de éticas muito remotamente parentes dos atuais códigos deontológicos — há um público para esse tipo de produtos que ainda hoje classificamos de jornalísticos porque habitam o ecosistema onde os vários produtos de informação convivem. Naturalmente, usarão durante o todo o tempo que puderem a etiqueta e o legado histórico, maximizando o rendimento da reputação adquirida.

Mas outras marcas saberão adaptar-se e descobrir as novas linhas mestras do jornalismo. E já estão a nascer novas marcas. Algumas transportam a herança dos blogues, um género híbrido, situável entre a descrição dos factos e a emissão de opinião, que tira excelente partido das tecnologias céleres e baratas de publicação e distribuição de conteúdo desembrulhado. Outras radicalmente novas — incluindo processos de financiamento de reportagens e outros trabalhos que os jornalistas podem propor.

Dispenso-me de enunciar exemplos — ainda estou no ativo.

Sintetizando: assistimos a um processo de divisão do que até aqui eram tidas como entidades jornalísticas, e de especialização em géneros e públicos.

Penso ser relativamente seguro especular que um mundo com doses gigantescas de informação necessitará de um mais elevado número de jornalistas do que o mundo anterior. O desprestígio e a decadência farão parte da transição, representando os que não quiserem, não forem capazes ou muito racionalmente preferirem negócios mais tranquilos à aventura do futuro.