Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de junho de 2011

Financial Times fez a descoberta do milénio: o iPad tem um browser!!

Devo começar por dizer que estou impressionadíssimo. Acabo de ler que o Financial Times “anunciou” uma “estreia mundial nos media”. E em que consiste essa estreia mundial nos media? Numa web app!! Como jornalista, não caibo em mim de orgulho!

O Financial Times fez a descoberta do milénio: o iPad tem um browser!!! Maravilhem-se e estarreçam-se com a segunda descoberta do milénio: o browser do iPad permite fazer bookmarks!!!!!

Não contente com a dupla e estarrecedora descoberta, o Financial Times descobriu o HTML5!

Mais: dando provas da imensa, incomensurável criatividade que tem caracterizado os media e a sua relação com a Internet e as tecnologias que permanecem novas há 20 anos, o Financial Times juntou as 3 descobertas para ENTENDER COMO é que “pode” evitar dar 30% das receitas das subscrições à Apple.

A Grande Descoberta consiste em: dizer aos leitores que acedam diretamente ao site do jornal através do browser do iPad em vez de terem de passar pela loja da Apple e fazer o download da app (genialidade número 1) e em seguida primam o botão que grava o atalho no iPad (genialidade número 2).

Espera-se, agora, que a Grande Descoberta varra os jornais de todo o mundo como um tsunami — ou, vá lá, um terramoto. Depois do afã em produzir apps caríssimas, irrelevantes para o leitor, duvidosas para o negócio mas que passavam uma imagem de modernidade e justificavam os ordenados dos gurus internos ou de outsourcing, milhares de jornais vão nos próximos meses descobrir que “o segredo” e “o futuro” estão no HTML, no browser e nos seus websites e em versões novas das mesmíssimas tecnologias que já usam desde, deixa ver, 1998, vá.

Isto são boas notícias para as empresas que fazem código, claro está. Codificaram a web 1.0, a web 2.0, as apps — agora vão codificar o regresso ao browser e ao HTML.

Para a Apple, tanto faz que os ceguetas tenham demorado 15 meses a descobrir a funcionalidade (sim: browser e atalhos existem no iPad desde que há iPad, e já existiam no iPhone, agora que falamos nisso). Durante mais de um ano gozou do privilégio de ter as melhores marcas de media do mundo a trabalharem para promover a sua própria loja — e ainda pagavam por cima. Construiu o seu marketplace.

Foi a segunda vez que os media esbanjaram o seu capital em prol de empresas tecnológicas. Mas algo mudou. Depois de se entregarem de má vontade à Google, para engordar a Apple mostraram entusiasmo, empenho — e era tanta a alegria que até pagaram um dízimo de 30%. É um planeamento suicida notável. Haverá terceira vez? O Facebook acredita que sim e, a avaliar pela quantidade de trabalho, capital e leitores que os media lhe estão a entregar com grande determinação, as probabilidades são de facto elevadas.