Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de janeiro de 2010

Haiti: a tragédia da pornografia mediática

Não me tem apetecido escrever sobre o Haiti. Em primeiro lugar porque a dor me coíbe. Em segundo, porque não faria mais do que acrescentar ruído inútil à cacofonia. Toda a solidariedade é tão escassa quanto justa e devida e não tenho nada mais a acrescentar sobre o Haiti.

Tenho leitores que me criticam por nem sempre ter uma opinião sobre os temas em que eles gostariam de saber a minha opinião. É a pensar neles, e não nos haitianos (a quem não poderei fazer nenhum tipo de bem nas minhas circunstâncias), que aqui indico duas notáveis peças, cujo teor endosso, não tanto sobre a tragédia haitiana, mas sobre a pornografia televisiva (expressão de Francisco José Viegas) — ou seja, sobre a tragédia da transformação em showbiz do que outrora foi uma indústria nobre.

O voyeurismo da tragédia, Francisco José Viegas

Notas haitianas, Eduardo Pitta

Nota adicional. Os acontecimentos no Haiti serviram para algumas vozes, das quais começo por nem sequer discordar, em tempo oportuno recordarem a diferença entre o jornalismo profissional e o “jornalismo do cidadão” — ou seja, uma posição de defesa da indústria mediática na altura em que esta se encontra sobre a pressão da imensa mudança de processos e de públicos. Argumento principal: sendo o Haiti um país atrasado e com pouca gente ligada nas redes sociais, falhou ali “por completo” a função de “informador” que noutros contextos tem sido cumprida pelos cidadãos, relevando a “necessidade” do jornalista para nos mantr informados.

Não estou nada certo que, em circunstâncias idênticas, cidadãos não treinados pudessem ter feito melhor do que profissionais do ofício de informar. (Nunca estive antes, quem me lê sabe de tais dúvidas.) Mas isto não os desabona. Já o comportamento dos profissionais do ofício de informar deixa-os garantidamente maus lençóis.

A quantidade de informação (para não falar da qualidade dela) de um qualquer telejornal doméstico (suspeito que noutras latitudes não seja diferente, mas falo apenas do que vejo) no tempo para o Haiti é vergonhosamente pouca quando comparada com a quantidade de espectáculo e de emoções. Tanto tempo de antena (do caro, com satélite) para tão pouco jornalismo!…

A quantidade de informação mede-se conta-gotas e quase toda ela é extraída fora do Haiti. A necessidade de jornalistas no terreno é muito inferior ao número dos que para lá foram deslocados com a missão de servir a telenovela da vida real às audiências das horas das refeições.

Só a custo consigo isentar um ou dois dos reconhecidos repórteres televisivos que temos, e mesmo eles sucumbem na maior parte do tempo à facilidade da emoção e do choradinho da causa social da semana (e todas as semanas há uma, a fazer esquecer a anterior). Sei que num ou noutro caso teremos umas reportagens para apreciar às 4 da manhã de um dia de semana, daqui por um mês ou dois.

Bem sei que é o que “as audiências” pedem. Mas esta voracidade pelo choradinho, sendo razão para alguns trade offs (não sou bizantinamente purista), não é pretexto para ceder. Cada segundo cedido é mais adiante pago a preço de vida em credibilidade perdida.

E, num ambiente info-rico, a credibilidade é das raras tábuas de salvação das marcas de jornalismo. É o que as distingue, ainda, das marcas de informação emergentes na Internet. A credibilidade é uma moeda ao alcance de qualquer um que disponha de tempo e vocação para o negócio. É, também, de erosão fácil.

A pornografia mediática devia ter um lugar na prateleira dos fenómenos que estão a mudar (para pior) o jornalismo, e os seus efeitos estudados. Uma tragédia é ninguém estar para aí virado.