Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de maio de 2009

i num instante nada mudou

ionline

N a falta de um estatuto editorial, um desrepeito pela Lei de Imprensa, busco no editorial do director, Martim Avillez Figueiredo, algo que me diga o que esperar do novo jornal diário saído ontem.

Fiquei a saber que não quero “pesadas” secções de política, economia ou cultura. Não. Quero o Radar: tudo o que de importante se passa, sei lá, por aí.

Por suposto, quero também o Zoom. Depois do Radar, vem a explicação. Mas — ah! — não fará o i zoom a tudo o que acontece: tal está reservado “ao que merece descodificação e profundidade”.

Cada um arruma as coisas como quer e chama às secções o que bem entender. A criatividade faz parte deste jogo e ao longo dos meus anitos de profissão vi cabeças de secção soberbas e também muitos desastres. As cabeças de secção são apenas isso: cabeças de secção. É bonito inovar, mas é apenas isso, bonito.

Mais à frente: o i quer “devolver” a agressividade que os jornais diários “perderam” e, na mesma penada, a “profundidade” que os semanários esqueceram e ainda, não percam o fôlego, a “sofisticação” que as revistas procuram.

Folheando o primeiro número, percebo que a “agressividade” estará reservada para mais tarde e suspeito, com tristeza, que não será dirigida a quem eu gostava que fosse. Não precisei propriamente do meu snorkel para mergulhar nas profundas explicações da gripe que mata menos que a sazonal e já tinha lido — ainda que na diagonal — a entrevista a Obama (ou eu não identifiquei bem o público-alvo do i, ou o público alvo do i já leu dias antes todos os exclusivos que o i vai publicar).

“Na verdade”, diz Martim Avillez Figueiredo a ficar sem recursos mesmo à beira do fim dos 2.000 caracteres do editorial, “o i acredita que num instante tudo muda e sabe que quem agora ler assim não lerá mais como antes. Nã há inimigos nem concorrência. Há uma paixão imensa pela informação e uma equipa preparada para suar”.

Não duvido. Nem dos inimigos. Nem da concorrência. Ou da paixão. Menos ainda: do suor.

Afinal, era a isto que se referia a constante alusão à mudança. Uma opinião fraca e a fazer o jornal tombar claramente para o lado conservador (se alguém usar “reaccionário” nas próximas semanas não me admirarei), uma falta de sentido de orientação quanto aos anseios e rumos das audiências do jornalismo e, em vez de espírito de missão declarado, o pregão da “mudança” tirado dos dossiês dos consultores da moda.

O website foi injustamente criticado por razões pequeninas (a tradução do castelhano não está concluída, so what?) quando há tantas por onde pegar — a começar pelos termos de serviço esquisitos, que não são deste século, desta web ou desta cultura. A passar pelas “escolhas” (escolhas? Ou sugestões dos consultores aceites sem pensar?) dos botões de partilha. A terminar no conceito de multimedia: uns videos para disfarçar a ausência de conteúdos Zoom e “fotogalerias” a martelo. Curto.

Ah: a noção de 2.0 é isto: o iRepórter, indicado para as fotos de batizados, descrições de lâmpadas públicas fundidas e videos de malabarismos de canídeos que passa por “jornalismo cidadão”, e as vulgares colunas de opinião que a modernidade mandou cunhar de “blogs” (estás ilibado, Marco).

Isto são só as primeiras reacções. Espero um mês, pelo menos, com tudo em aberto. Agora sem os slogans dos consultores e do marketing e libertos da pressão do número 1, que é sempre um mau número: surpreendam-me nos próximos 20 números.

Zoom (it’s a joke)

i agora…que a publicidade me enganou? Luis Santos no Jornalismo & Comunicação

i: o jornalismo de cidadão num jornal adulto (sem estatuto editorial?) Pedro Fonseca, no Contrafactos

Nasceu um Jornal – o website Alexandre Gamela n’O Lago

10 cosas que me gustan de ionline.pt José Luis Orihuela no ABC.es

Nota bene: juro que foi a última vez que chalaceei com o raio da terceira vogal. Já cansa. Irra.