Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de setembro de 2009

Manifesto Internet: como o jornalismo funciona hoje. 17 constatações

manifestointernet

A história do Manifesto Internet é daquelas coisas que só acontecem na Internet. Reagindo ao que consideram ser um equívoco (escolha de palavra minha) por parte dos proprietários de grupos de media europeus, a Declaração de Hamburgo, um grupo de jornalistas alemães decidiu redigir conjuntamente um manifesto.

Publicaram-no como mandam as regras da rede: com uma licença Creative Commons 3.0 — uma espécie de tomem lá, usem, distribuam, isto é de todos mas de nenhum.

Publicaram-no na segunda-feira, dia 7. Jeff Jarvis “tweetou”: Leading innovators in German journalism issue an internet manifesto.

Em poucas horas sucedeu o inevitável. O meio ambiente reticular premeia o que é bom, positivo ou marcante. Veio a versão inglesa. Seguiu-se a francesa. A espanhola. A italiana. A francesa. E a portuguesa. Tudo isto antes de terça-feira, dia 8, terminar.

Talvez a portuguesa tenha vindo antes da italiana. Isto não é uma corrida.

Versão portuguesa

Interessa-me a história da versão de língua portuguesa. Nasceu assim: a meio da tarde de terça perguntei ao Pedro Teichgräber, jornalista da RTP no Porto, em menos de 140 caracteres, o que achava ele de fazermos a versão portuguesa do manifesto, dei-lhe o link da versão alemã. A resposta veio rápida e entusiasmada. Depois do jantar, feita nos intervalos da sua edição na RTP, metia-me no mail a tradução.

Se não fosse um problema no registar Joker.com, a “nossa” versão tinha tido site ainda ontem. Acabei por registar já a cair de sono às 3 da manhã de quarta-feira, no GoDaddy. Mas antes de ir dormir tive o prazer de receber as DMs do Pedro, que estava muito justamente contente pelo nosso contributo.

Mas não acabou aqui.

Enquanto o domínio propagava pela Internet, enviei um mail à nossa lista do TwitterPortugal Blog e a mais alguns jornalistas. A ideia era apenas espalhar. Mas uma vez atirada à rede, sabe-se lá o que acontece a uma ideia ;) Na quarta de manhã o meu mail e o meu Twitter aqueciam. Sugestões, alterações, melhorias. Tudo com aquela espontaneidade, ordem e correcção que nos deliciam, quando fazemos algo em equipa. Estas equipas próprias da Internet, que nascem do nada, brilham intensamente e se desfazem — deixando algo.

Sabem que eu sou adepto dos wikis. É uma plataforma extraordinária para o trabalho colaborativo. Até parece que não sou português: os portugueses nunca foram grandes apreciadores de wikis, é ver quem faz as despesas da Wikipedia em português. E não só: lancei diversos projectos usando wikis e apenas um teve relativo sucesso.

Pelos vistos, preferimos um método de organização mais típico do open source — em especial do Linux. O grupo de e-mail chega. Há contributos, há sugestões, que se somam e subtraem — e no fim alguém tem a missão de decidir o que se incorpora e não incorpora na versão final.

Making of

O Manifesto Internet: como o jornalismo funciona hoje. 17 constatações nasceu assim: a tradução do Pedro Teichgräber, a primeira versão online composta por mim, primeiros erros emendados ainda por ele; depois a lista contribuiu em doses desiguais: o Alex Gamela, o João Almeida, o Bruno Ribeiro, a Catarina Campos, o Pedro Fonseca. A mim coube-me a função ir corrigindo. O documento teve 3 versões e algumas modificações mínimas.

No Twitter, sobretudo, o Manifesto Internet foi amplamente divulgado. Espero que contribua positivamente para o esclarecimento de bloggers, autores e em especial jornalistas sobre o futuro do jornalismo (que já é o seu presente, para muitos de nós).

Talvez eu não concorde com tudo o que lá está. Mas subscrevo-o como um EXCELENTE documento de trabalho. Em especial por se tratar de um documento útil e virado para as respostas, ao invés da declaração dos patrões de media, que persegue o irrealizável objectivo de importar fronteiras e barreiras para o meio ambiente reticular. Barreiras e fronteiras que, sendo naturais ou decorrendo da diferenciação no acesso aos meios de produção, no mundo “cá fora”, não passam de risíveis imaginações “cá dentro”, no mundo sem geografia da Internet, propulsionado pelo extraordinário poder dos microprocessadores, esses malandros revolucionários que colocam nos dedos engordurados de cada lumpen proletário um combo rotativa + carro de exteriores + estúdio de gravação + rede de distribuição. De borla!

Leitura adicional

Recomendo duas leituras. Janko Roettgers, um dos autores do Manifesto, escreve:

Time to Take a Stance on the Future of Journalism. E Miguel Caetano, um dos mais activos divulgadores luso-brasileiros dos modelos abertos e participados na produção cultural e editorial, faz um pequeno apanhado do contexto histórico do manifesto em Manifesto Internet: porque o futuro do jornalismo online passa por respeitar os leitores

publicação simultânea com TwitterPortugal Blog