Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de novembro de 2008

O conceito de "última hora"

É curioso, e desconcertante, ver que os mainstream media transportam para a web conceitos que neste ambiente info-rico simplesmente não têm capacidade de colar. Um deles é o conceito de “última hora”.

Os diários, rádios e televisões dão as suas “última hora” online com o ênfase de “breaking news”. Nos formatos de origem, admite-se que fazia algum sentido a associação. O público não tinha acesso ao telex da Lusa, pelo que se lhe davam as últimas notícias importantes no momento de fecho da edição (caso dos jornais e telejornais). Como a esmagadora maioria dos públicos não se sobrepunha de título para título, fazia sentido (até económico).

Mas no ambiente info-rico da Internet os públicos estão em rede. A distribuição reticular e a existência de novos pontos nevrálgicos de retransmissão faz com que as audiências se sobreponham. Assim, chegamos ao ridículo de ver a mesma informação ser copiada e repassada pelas marcas de jornalismo com o carimbo de “importante”.

O efeito de banalização é inevitável. E os seus reflexos atingirão quem? (exercício para a classe).

Na web, a maioria das pessoas lê as notícias em agregação, e não por título. Há agregadores para todos os fins e públicos — desde agregadores por grosso, como o News Google, aos agregadores pessoais, via feeds de XML. É uma frustração, ligarmo-nos ao nosso agregador e termos a mesma notícia a ocupar o espaço todo — com o mesmo título, certo ou errado, a mesma declaração, só muda o logotipo do retransmissor armado em “emissor”.

Mudar este comportamento dos jornalistas é virtualmente impossível. Está-lhes marcado profundamente, na aprendizagem, a concorrência pela celeridade. Como explicar-lhes que algumas das regras do mundo dos átomos são viradas de cima para baixo no mundo dos bits?

Todos queremos dar primeiro, mas só um dá primeiro. No mundo físico, não faz mal, a maioria dos leitores não repara. Mas em rede toda a gente sabe quem deu primeiro. Logo, ou se dá primeiro, ou se retransmite. Não há valor algum em fazer de conta que se deu primeiro.

Como não há mecanismos automáticos para eliminar as repetições, a tendência dos “clientes” vai ser a de retirar dos seus agregadores os papagaios. Os geradores de ruído.