Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

26 de março de 2011

O drama do modelo de negócio da Imprensa, o horror da falta de certificação e outras tretas

Em crónica no jornal i José Couto Nogueira diz, entre outras coisas, que “sem receitas, a indústria está condenada a ser substituída pela informação não certificada“.

Bem sei que é o wishful thinking de muita gente, do meu bom amigo Couto Nogueira ao Doutor Balsemão, mas simplesmente não é verdade.

A indústria pode, ou não, ser substituída. Mas se o for, não será por “informação não certificada”.

O que será (porque já é) certo é que a informação será certificada por outras pessoas e meios, substituindo os jornais. Na realidade, alguns desses certificadores serão (já são) jornalistas. Para estes é uma atividade rigorosamente normal: já é o que sabem/estão treinados para fazer.

Imagem aérea de Niagara Falls

Um número crescente de pessoas (que se começam a organizar em entidades maiores) está a assumir o papel de certificador das cascatas de informação que as redes, todas, vieram abrir. Os leitores confiam nelas. Aos poucos, desenharão uma nova paisagem de confiança. Pessoas-marca e entidades-marca emergirão, umas como certificadoras, outras como produtoras, outras ainda como agregadoras — e algumas com um misto dessas funções.

Dessas novas marcas de distribuição-certificação, umas serão de maior confiança que outras. Naturalmente. O mesmo se passa, de resto, nos media convencionais: uns são de maior confiança que outros. Não é das regras e das leis, nem da supremacia divina ou conferida pelo nascimento, que essa confiança se estabelece na audiência, mas da competição das várias marcas em mercado aberto.

A web é um novo mercado, extremamente competitivo e — para horror dos patrões de media — sem barreiras de entrada a novos players, uma escandaleira.

Modelo de negócio

Caro josecnogueira, estou de acordo — estamos todos — que falta um modelo de negócio. Agora: eu não tenho dúvidas que vai ser encontrado. Também não tenho dúvidas que ele não será o modelo pretendido pelos patrões dos media do século XX.

O próximo modelo de negócio vai girar em torno da notícia-unidade e não da embalagem, como até aqui. Talvez volte a existir um tempo em que a informação será vendida em conjuntos encapsulados e embalados — mas é garantido que no curto e no médio prazo não será assim.

Repara: o consumidor tem, digamos, 20 euros por mês para comprar notícias. NEM PENSAR que os vai gastar num só jornal ou mesmo em dois. Porque cada um desses jornais lhe venderá nesse mês algo como 9.000 notícias, das quais ele realmente só quer ler umas 180. O desperdício só é forçoso no papel. Online, é um disparate, ninguém pensa, sequer, nisso. Fora de questão aceitar.

Mas o leitor paga de bom gosto os 20. Se querem uma fração deles, os media têm de vender através de um modelo que permita que os 20 sejam distribuídos pelos autores das 180 notícias que o leitor quer ler.

É muito simples, na verdade.

E olha que não é difícil. Já temos, aliás, um modelo igual na publicidade, comprado/inventado pela Google. É uma questão de tempo.

Das duas, uma: ou os media se adiantam e o modelo é deles, ou ficarão novamente mendigos à porta da futura “igreja” da venda de informação, como ficaram à porta da Google (publicidade) e da Apple (aplicações para suportes digitais portáteis de leitura).