Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de novembro de 2008

O falso holograma da CNN

Como toda a gente, admirei a CNN na noite da eleição de Barack Obama para próximo presidente dos EUA por causa do “holograma”. É pena não ser um holograma verdadeiro.

Estes, os verdadeiros, são imagens formadas presencialmente. No estúdio novaiorquino, o pivot Wolf Blitzer entrevistava realmente o ar, o vazio, não tendo à sua frente a imagem holográfica de Jessica Yellin, que estava em Chicago. A composição “holográfica” era, tal como no muito citado caso do filme Guerra das Estrelas, um truque de montagem. Jessica e Wolf falavam um para o outro como centenas de pivots fizeram em directo antes deles: dirigindo-se a um ponto vazio à sua frente, onde imaginam que está o interlocutor, graças à sua vasta experiência e, nalguns casos, a monitores escondidos dos olhos do público.

A inovação da CNN consistiu em dar tridimensionalidade a um tipo de momentos televisivos que era refém da bidimensionalidade. Em vez de surgirem no nosso ecran janelas de inserção ao lado do pivot, ou mais recentemente muros de video que já libertavam o pivot local da obrigação de permanecer na mesma posição, a surpresa anunciada pela CNN para a cobertura eleitoral consistiu em exibir na televisão uma imagem a três dimensões do repórter remoto sobreposta à imagem do estúdio local, parecendo tratar-se de um holograma projectado neste.

A definição corrente de holografia não deixa lugar à confusão sobre os hologramas. Não podem ser vistos como “mais uma forma de visualização de imagens em 3 dimensões, mas sim como um processo de se codificar uma informação visual e depois (através do laser) decodificá-la recriando “integralmente” esta mesma informação. É importante notar que diversas formas de projecção são erroneamente chamadas de “holográficas” por resultarem em imagens que aparentemente estão no ar (projecções sobre telas transparentes, películas de água, fumaça ou óleo); na verdade o sentido da holografia é o da reconstrução e da integralidade da imagem e não de uma impressão visual fantasmagórica“, diz a respectiva ficha na Wikipédia. Que conclui: “até hoje não existe uma forma de projecção de imagens no ar sem qualquer suporte, seja ela holográfica ou não“-

Claro que, como apreciador inveterado de filmes de ficção científica, deliciei-me quando vi Jessica Yellin rodeada por um halo de luz. A imagem não era menos espantosa do que seria caso se se tratasse de um holograma verdadeiro. E do ponto de vista tecnológico, foi sem dúvida de uma façanha. Para não mencionar a palavra inovação.

Os diversos métodos de telepresença são explorados por várias empresas em todo o mundo. Para este acontecimento, que envolvia a captação de imagem de Jessica com uma bateria de câmaras de alta definição (13 segundo umas fontes, 35 segundo outras) que a rodeavam num ângulo de 270 graus, a CNN recorreu ao aconselhamento da Vizrt e da Sportvu. A quem queira aprofundar o assunto, aconselho que veja as soluções da Cisco, que é das empresas mais avançadas em telepresença e que já há dois anos apresentara uma demonstração idêntica à da CNN na noite das eleições, apenas com menos câmaras e sem dramaturgia (link abaixo).

Resta acrescentar que nem toda a gente se mostrou assim tão impressionada. Deborah Potter, uma antiga jornalista da CBS hoje directora do think tank Newslab, disse achar estranho que a CNN tenha deslocado tão vasta equipa para o local das celebrações da vitória de Obama, para depois a mostrar ao público a repórter como se ela não estivesse lá…

Links:

Video da Cisco no YouTube sobre On Stage Telepresence.

Vizrt.

Sportvu.

Trecho da emissão da CNN com o “momento holograma” de Jessica Yellin.

Paulo Querido, jornalista