Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de outubro de 2010

O Telegram, o número de visitantes, as paywalls e os modelos delas

Peter Kafka escreveu com júbilo acerca da subida de tráfego de um jornal mesmo depois de ter erigido uma paywall (A Newspaper Pay Wall Goes Up–And So Do Visitor Numbers, no All Things Digital).

Eu diria que é um erro devido ao seu otimismo entusiasta e às expetativas demasiado elevadas quanto aos modelos de negócio dos media no mundo online. Dessa doença sofrem muitos.

(Publicado originalmente no Ondas na Rede, blog do Correio da Manhã.)

O jornal em causa é o Telegram.com. Tendo em conta o seu tráfego anterior, basta ser notícia na Imprensa e blogs para ter de imediato um pico. Ora, o Telegram foi notícia por ativar a paywall — que, diz-se, serve de laboratório de teste para o futuro modelo de subscrição do New York Times.

Ter mais tráfego pode ter algum significado no contexto. Mas eu ficaria admirado se tivesse. Vejamos.

Se eu fizer uma pesquisa e for parar ao Telegram, conto como uma visita. Quem diz pesquisa diz redes sociais diz blogs: um link e aterro no Telegram. Conto como uma visita.

E que fiz eu para o sucesso do Telegram, além de contribuir para o seu número e visitas? Li o jornal, ou algum do seu conteúdo? Inscrevi-me e passei a pagar?

A página de subscrição, para a qual os leitores são redirecionados se por um extraordinário acaso forem parar ao Telegram, através de um link em pesquisa ou na web, mais de 10 vezes num período de 30 dias, conta como um visita. Assim, nos primeiros tempos em que um jornal coloca uma paywall, o tráfego referral continua a enviar leitores que continuam a contar como visitas — mesmo que tenham acertado em cheio na página de subscrição, resmungado uma imprecaução e voltado à página anterior, à procura de uma alternativa.

Resumindo: o número de visitantes tem de ser analisado num contexto e num quadro juntamente com outros elementos, sob pena de servir apenas de instrumento de propaganda.

Quero com isto dizer que não acredito no modelo paywall?

Hoje chamamos paywall a tudo. Na realidade, há diferenças ENORMES entre modelos que estão a ser aplicados e o uso genérico da expressão devia ser evitado. Uma visita à entrada da Wikipedia permite ver algumas das diferenças: Paywall.

O modelo de subscrição é válido, na web como fora da web, em qualquer ambiente. Simplesmente tem de ser pensado com cuidado, levando em consideração os vários aspectos de cada ambiente, desde o tipo de leitores a que se dirige aos eventuais traços culturais desse ambiente. Há culturas mais propensas ao pagamento de serviços do que outras.

A questão não está em ter ou não ter um modelo de subscrição. A questão está em ter clientes para ela. Isto é: em conquistá-los.

Ao longo do século XX a indústria dos media foi evoluindo de um modelo de grande profusão de títulos e proprietários para um modelo de concentração. Esse permite, entre outras coisas, algumas imposições aos dois mercados que financiam a operação: o mercado da publicidade e o mercado dos leitores. Tão eficiente a indústria foi que as condições de escassez eram admiráveis: a determinada altura, se queríamos consumir media fosse de que tipo fosse, não havia outra alternativa senão pagar pelo acesso.

O problema com a Internet é que veio criar condições para um novo movimento de descentralização da propriedade, logo dos meios de criar escassez, necessários para fazer funcionar a subscrição. Hoje os “conteúdos” dos vários tipos fluem por todo o lado.

Do que os empresários de media agora andam à procura na Internet, finalmente, é de reconstruir o mesmo tipo de ambiente onde se possa criar, ou simular, a escassez de produto tão abundante como a comunicação. É por isso que adoram o iPad: um aparelho que devolve o controlo sobre os “conteúdos”.

Na verdade, passaram a ter de fazer de novo pela vida, o que não é necessariamente mau. Agora, é acertar num modelo e afiná-lo. Ou — isto é o que eu penso — num conjunto de modelos. Tal como no mundo dos átomos a aquisição do jornal não dispensa as receitas publicitárias, no mundo dos eletrões os dois modelos são compatíveis. Até com outros modelos que possam surgir: a comunicação no futuro é completamente multimeios, multicanais. O segredo está em dosear os modelos à disposição, sem deixar de levar em consideração o potencial do produto que se oferece, enquadrado no meio ambiente.

O jornalismo de baixa qualidade jamais conseguirá vender subscrições suficientes e mesmo a publicidade renderá sempre migalhas — estamos num mundo riquíssimo de informação de baixa qualidade, a competição é ferocíssima levando o valor desse produto a perto de zero. Só com estagiários que ainda pagam para trabalhar será possível competir com o exército de jovens e dos desempregados com demasiado tempo livre e a informática como instrumento.

Mas para cima na escala de valor… Há um mundo vasto de oportunidades. A verdade é esta, como disse Clay Shirky: It’s Not Information Overload. It’s Filter Failure. O mundo precisa cada vez mais de filtros, que é como quem diz, de jornalistas.

(Publicado originalmente no Ondas na Rede, blog do Correio da Manhã.)