Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de maio de 2012

Ouch. (Ou: um sermão de António Pinho Vargas que faria bem aos jornalistas se estes o ouvissem)

Do mural de António Pinho Vargas no Facebook retiro esta reflexão sobre “os comentadores” — essa camada da população incapaz de admitir a sua responsabilidade enquanto agents de um dos poderes que mais poder conquistou nas últimas duas décadas. Como jornalista, digo ouch — mesmo sentindo-me sobretudo leitor/consumidor, como Pinho Vargas. E a classe, o que dirá?

Leio o Expresso e o Público de hoje sábado. Encontro muitos artigos sobre o episódio do Pingo Doce no 1º de Maio a que chamei o do consumidor-desesperado. Em vários desses artigos os comentadores “analisam” o caso e sublinham a decadência do sindicalismo e a mediocridade dos portugueses.

É um facto que, no supermercado, não se pode comprar fatos Armani, ou de qualquer outra marca, nem ipads, nem Mercedes. Compram-se produtos alimentares, papel higiénico, detergentes, vassouras e outras coisas importantes para ter em casa.

Daqui ressaltam duas coisas: o comentador-jornalista-bem-pago não se considera parte dos portugueses consumidores-desesperados. Está acima. O que não admira porque ganha muito mais dinheiro e não precisa de fazer a triste figura. Pelo contrário, ganha a vida a comentar a triste figura.

Mas falta-lhes analisar a sua própria parte na falta de assunto. A falta de assunto mostra como os comentadores são totalmente escravos da atualidade, são incapazes de produzir um pensamento rico, capaz de se reproduzir numa outra coisa que vá mais além, ou totalmente banais na sua crítica ridícula à imoral do capitalismo. O capitalismo é amoral. Analisa-se noutro patamar a que nunca poderão chegar porque fazem parte integrante do analisável.

Tudo isto mostra, assim, que a “mediocridade dos portugueses” se mede melhor nos seus próprios artigos escravos-da-actualidade, na falta de qualidade geral da imprensa escrita ou televisiva, do que no comportamento dos cidadãos consumidores. A sua “escrita”, as suas “análises” traduzem semanalmente muito melhor a mediocridade-dos-portugueses do que alguma vez poderão imaginar.

Porque é que não vão escrever para The Guardian, Le Monde ou The Economist? Eu digo-lhes: porque não têm nada para dizer e nesses jornais não os quereriam para nada. Ao contrário do que pensam, pertencem aos medíocres que julgam desprezar.” António Pinho Vargas