Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de abril de 2009

Sobre o futuro dos jornais e do jornalismo

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Recupero do email respostas a uma entrevista que a Sandra Alves, do Jornal de Notícias, me dirigiu há quase um ano, em Maio de 2008. Sobre o futuro dos jornais e do jornalismo.

> – Qual o futuro dos jornais, tendo em conta como os conhecemos actualmente?

Com pequenas variações regionais, o jornal que hoje conhecemos, em papel, vai gradualmente desaparecer. O desaparecimento será mais rápido nas sociedades do Norte e mais lento a Sul — há países onde a circulação está a aumentar e assim continuará algum tempo mais.

Alguns títulos farão o que é inteligente: subir na escala de valor, passando a depender menos da publicidade e encontrando os seus nichos de leitores que privilegiam informação de qualidade. Mas à maioria está destinado o caminho da facilidade, que é o de descer na escada de valor até ao nível da folha de supermercado — ou mais abaixo, se puderem.

A imprensa de nichos, especializada, manter-se-á.

Talvez ainda nesta metade do século surjam tecnologias baratas de portabilidade equivalente ao papel, mas não creio que venham dos actuais rumos de investigação em cima dos polímeros.

> O formato papel será apenas para “elites”?

Não creio. A importância do papel como meio de comunicação de massas diminuirá, com o grosso dessa comunicação a passar para o digital ubíquo (o que ainda conhecemos como Internet), mas o papel encontrará outras funções que não tenham a ver com a intermediação de notícias. Enquanto meio, não vejo o fim do papel nem a meio século. Agora como meio de transporte de jornalismo, sê-lo-á tendencialmente menos. Isto será vertical — ou seja, tanto as massas como as elites serão consumidoras do papel, o que quer que seja que ele veicule. Provavelmente, produtos de grande qualidade num topo e produtos de escasso valor no outro extremo.

> Terá a Imprensa de apostar a sério na divulgação através de plataformas tecnológicas (internet, telemóvel, etc.) para atingir outros/novos públicos?

Essa é uma pergunta que só se faz em Portugal. Ponhamos assim: quem já apostou, tem hipóteses de ainda salvar os seus negócios, adaptando-os, quem não apostou, paciência, desaparece.

> – Na produção de notícias, quais as grandes alterações que se poderão prever?

> O cidadão ganhará influência na divulgação e criação de informação?

A breve prazo assistiremos a uma explosão de criatividade na produção de informação. Quando os actuais jornalistas deixarem de estar agarrados aos modelos de negócio decadentes e se encontrarem com novas gerações ágeis e dinâmicas, veremos um surto de novos produtos de informação impossíveis até aqui, presos por uma lógica económica de ecassez. Num ambiente de riqueza (ao nível da saturação) de informação, precisamos de ferramentas, utensílios e formatos de tracking e de síntese.

Assim, teremos fluxos, rios de informação super rica em todos os segmentos possíveis e impossíveis de imaginar, e veremos surgir métodos multimedia de abarcar a realidade. Já está a começar, basta olhar para o sítio certo, para o centro da infoesfera que habitamos.

O cidadão tem a ganhar com o envolvimento e participação no processo de divulgação e criação de informação. Aliás, em muitos casos ele É tanto o sujeito como o veículo. A atomização dos media proporcionará um ambiente envolvente a 360 graus, uma imersão tao profunda que impacta ao nível da nossa percepção dos direitos individuais e da privacidade.

(Se o seu filho quer ir para Direito, não veja nisso um problema: só tem de o ajudar a focar-se nas áreas emergentes do Direito!)

> – O papel do jornalista irá alterar-se?

> Tal como o computador hoje domina as redacções, também os aparelhos de áudio e vídeo digitais vão impor-se?

O papel do jornalista só se tem alterado na medida em que se tem vindo a refinar. Estamos a passar um período de alguma desorientação agravada pelo fim da economia do jornalismo, mas esta não muda no essencial o papel do jornalista: ajudar a aproximar as pessoas do acontecimento, do que é importante. O facto de o público ter agora maior liberdade para decidir o que é importante só vai enriquecer o papel do jornalista.

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Por outro lado, a tecnologia vem ajudá-lo. Desde há tempos, em 2 aspectos: na rapidez de difusão global (embora faça vítimas ocasionais, como tem sido o caso da Lusa) e na capacidade agregadora.

O jornalismo assistido por computador torna a profissão mais fascinante.

Na minha primeira Redacção dominava o telex… Em dez anos o fax tornou-se o centro vital da redacção. Depois, o microfone. E depois o computador. Onde tantos vêem mudanças súbitas e ameaçadoras, em não consigo ver mais que evolução.

Ainda se mandam faxes, o telefone é uma peça fundamental (ou a sua evolução para falar de voz à distância, e vejo aí 2 ou 3), o mail já faz parte do dia a dia dos jornalistas.

O computador na verdade ainda não chegou às redacções. O que chegou, foi uma máquina de escrever estupidamente cara, um camião TIR que gasta 50 litros aos 100 e que os jornalistas usam para “deslocações” que deviam na realidade custar o preço de meio litro: escrever umas laudas que vão para a “secretária” do editor, e desta para a “tipografia”. Não é seguramente culpa deles, mas de quem toma decisões erradas do ponto de vista da gestão.

Mas isso não é comigo, passo por cima.

O que é comigo é isto: os jornalistas ainda não descobriram a formidável máquina de apoio à recolha de dados e sua preparação e formatação, automatização de tarefas, “escravo” digital para mastigar incansavelmente quantidades de informação impossíveis de avaliar antes, a que chamam computador.

Penso que algures ao longo dos próximos cinco anos se perceberá melhor o que eu estou a dizer.

> – A leitura dos cidadãos será igual?

Não. O que hoje chamamos leitura torna-se imersão. Viv(er)emos “dentro” do noticiário, ao ponto de o termo se tornar irrelevante e cair em desuso.

> Lê-se o jornal de manhã e “acabou” a temporalidade das notícias… Ou o fluxo contínuo de informação actual (14 horas por dia na TV, rádio, internet) vai exigir mudanças também à Imprensa?

A grande “vítima” do fluxo é a televisão. Quando ligo a televisão à noite, a sensação que tenho é que aquilo é tudo velho. Dou por mim e há notícias – e nem falo de peças, pode ser um rodapé — que eu tive há 2, 3 dias. Como no jornal o que já nos habituámos a procurar (e a esperar) é mais a explicação, o ponto de vista, o cruzamento e ligações entre dados, este acaba por se safar pois que essa função subsiste fora do fluxo.

Mas claro que exige mudanças, como todas a evoluções. Como exigiu a introdução da fotografia há quase um século, como exigiu a rádio, como exigiu a câmara de televisão e a imagem em movimento, o off-set nos anos 60-70, o desktop publishing nos anos 90. A história do jornalismo é uma sucessão de rápidas mudanças e adaptações a técnicas e tecnologias em constante evolução, esta está bem dentro da linhagem. A geração que hoje domina nas Redacções é a geração que começou no desktop publishing e encara o digital como uma mudança, mas dentro de dez a 15 anos sorrirá perante a perspectiva de adoptar as então “novas tecnologias” como, talvez, o holograma (muito útil para entrevistas, por exemplo!)

E dá vantagens: a reportagem assistida por computador permiti apresentar no dia seguinte um manancial de informação mastigada e relacionada (à escala global) com um grau de sofisticação antes só acessível a grandes equipas a trabalhar dias a fio. Uma edição impossível de produzir na véspera por uma redacção vocacionada para o fluxo, para o online — e sobretudo aquilo que vai interessar aos administradores: uma edição de valor, não produzível pelos utilizadores com o seu arsenal de blogues.