Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

31 de maio de 2009

Sobre o Kindle, os jornais e os próximos 20 anos, respostas ao Semanário Económico

kindle

Perguntas da jornalista Angela S. Marques, do Semanário Económico, e minhas respostas. A entrevista saiu no Semanário Económico a meio do mês que hoje termina.

Como acha que serão os jornais daqui a 20 anos? Os jornais do futuro serão mesmo projectados num Kindle ou num instrumento parecido?

Só um louco responderá a uma questão que envolve jornais e um prazo de 20 anos, mas vamos lá a isso. Daqui a 20 anos teremos dois suportes diferentes para os jornais. Num deles, o papel, o conteúdo será muito diferente do actual: o jornal apresentará tudo excepto notícias. Estas foram transmitidas por outros canais. No outro suporte, o electrónico, teremos conteúdos mais parecidos com os que hoje integram os jornais: noticiário relevante localmente, análise, reportagem. Ao contrário dos conteúdos do papel, que serão de baixo ou nulo valor, aqui teremos conteúdos de valor: o jornal electrónico, um suporte caro quando comparado com o papel, terá subscrições diferenciadas para públicos à medida.

O Kindle estará num museu, bem como a sua descendência próxima. A 6 geração, se ainda existir, servirá de aparelho de interacção à distância, incluindo acesso à Wikipedia humana ou equivalente. Mas só para os pobres que não puderem dispor de um chip usável como roupa ou adorno, com o seu cone de projecção holográfica.

Os jornais serão por isso um produto mais caro?

Teremos jornais baratos e até de borla, como hoje, em papel — um suporte cada vez mais económico. E teremos jornais mais caros, os electrónicos, sejam em suportes de papel especial, sofisticado, capaz de reproduzir imagem animada, durável, lavável, sejam em suportes de plástico que farão mais ou menos o mesmo, sendo deles concorrentes.

Os jornais em papel têm tendência a desaparecer?

Em quantidade de títulos, penso que sim — mas não o tenho por adquirido. Assistiremos, sim, a uma degradação da qualidade da imagem hoje associada aos jornais: o que estava reservado a grupos prestigiados passará a ser economicamente acessível aos supermercados e oficinas de automóveis. O que pode, até, multiplicar o seu uso. Em número de cópias, pelo contrário, a tendência é para o aumento.

Os jornalistas serão obrigados a mudar alguma coisa na sua forma de trabalhar, na sua opinião?

Tempo verbal errado. Os jornalistas JÁ SÃO obrigados a mudar de processos. A informação, bem como o respectivo acesso, há muito deixaram de ser um bem escasso.

O que mudará na forma como lemos os jornais? Acabará o saco do Expresso na mesa da esplanada e milhões de suplementos por ler?

A leitura de lazer — a de fim de semana, que descreve — continuará mais ou menos nos mesmos moldes. Sendo o papel mais barato que a sua própria distribuição, teremos inevitavelmente mais suplementos — pelo menos nos próximos anos. Até ao limite suportável…. do peso.

Esta possibilidade que já existe de termos notícias ao minuto na internet… com um jornal no Kindle poderemos ter as notícias ao minuto em qualquer lugar? Sem precisarmos de estar ao computador?

Sim — mas isso não tem nada a ver com 20 anos. Eu já tenho isso. No meu iPhone. Leio quando quero o que quero — desde que, no caso português, seja o Público. Ter um aparelho de 400 euro, um mono a preto e branco, só para ler jornais, revistas e livros — não me parece nem prático nem aconselhável. Mas se ele for um canivete suíço da comunicação, versátil, com audio e video, acesso às redes de dados e voz, então já me parece sensato carregar com um. De preferência, pequeno.