Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de novembro de 2010

Tópicos do Jornal de Negócios: uma novidade no jornalismo em português

Ao fim de três meses de trabalho quase exclusivo nesta aplicação web, no momento do lançamento fico sem palavras para a apresentar. Foi de tanto codar, ou será apenas de um dia exigente? Pouco interessa agora.

Chama-se Tópicos e é uma novidade no jornalismo em português. Não há nada parecido com o que fiz para o Jornal de Negócios (e para o Record, em lançamento para breve, com um modo de visualização diferente).

O Pedro Santos Guerreiro, diretor do Jornal de Negócios, aceitou a minha proposta (obrigado, Pedro!) e levou-a à administração da Cofina juntamente com o Alexandre Pais, diretor do Record.

O Pedro batizou-o de “leitor inteligente das notícias do mundo” (notícia da apresentação no Jornal de Negócios).

Como o Negócios, também eu acredito que “a informação é o mapa para a humanidade viver melhor, orientar-se em crise, compreender o mundo. Mas hoje a informação é tanta e tão dispersa que precisamos de novas ferramentas de extração e visualização, bem como novos “pontos de referência: eis “Tópicos”, uma nova ferramenta inteligente para ler as notícias da economia nacional e do mundo“.

Trata-se de uma ferramenta de pesquisa inteligente, em que o Negócios analisa em tempo real centenas de artigos de jornais e blogues seleccionados, com o apoio de algoritmos que determinam que assuntos estão a marcar a actualidade económica, nacional e internacional, e que repercussão têm nas redes sociais. Veja, todos os dias, em tempo real, as palavras que estão a fazer as notícias.

Dito o que são os Tópicos, eis um pequeno guia sobre eles.

Tópicos assenta em software open source

Está programado em linguagem PHP, usa uma base de dados MySQL.

90% da programação é da minha responsabilidade

Escusam de deitar as culpas para cima dos 10% de código de terceiros que aproveitei ;)

Começou a germinar na minha cabeça ainda em 2009. Mas só no último Verão passei as ideias ao teclado. Aproveitei as férias para fabricar uma prova de conceito — e um produto lateral, um “comparador” de jornais, que nunca viu, nem verá, os olhos do público: serviu de aperitivo para o Negócios.

O grosso do código foi escrito e testado num mês e meio.

Link Journalism

Nos ensaios deu para ver o pobre estado dos feeds RSS dos jornais portugueses. Tirando exceções, a maioria é pobre, má mesmo. A não inclusão, nesta fase, do Jornal i e dos meios do IOL — Agência Financeira e Mais Futebol — deve-se precisamente à inconsistência ou impraticabilidade dos seus feeds.

Digo isto porque os Tópicos, entre outras coisas, na sua função de agregador estilhaçam uma das piores práticas dos jornais online portugueses, que é a de evitar a qualquer custo os links para fora — em especial se os alvos são jornais concorrentes. Não. Uma vez escolhido um meio por razões técnicas e editoriais (relevância é a primeira delas), ele é incluído e tratado em nível de igualdade com todos os outros.

Como disse Jeff Jarvis: “do what you do best, link the rest“. O link journalism é um vetor fundamental do projeto Tópicos (outro é o Jornalismo Como Um Serviço).

O mesmo se deve dizer de alguns blogs que gostava de incluir no rastreio e que ou não possuem feeds parciais, ou usam uma taxonomia que não beneficia a respetiva propagação. É o caso do Blasfémias, que infelizmente não tem a representatividade que mereceria.

Web semântica

Usei diversos motores semânticos, como o Yahoo Term Extraction, até me fixar nos que produzem resultados menos maus. Há ainda algum “ruído” na escolha dos tópicos — parte dele é filtrado por algoritmos que constituíram o grosso do meu trabalho. Mas acabei por optar por desenvolver um motor próprio, exclusivo. Não tenciono ser muito mais explícito do que isto — pelo menos não publicamente, aprendi umas lições sobre roubo de ideias e de aproveitamento inesperado de informações nos últimos anos.

Assim, os Tópicos são “propulsionados” por (um número deliberadamente omisso de) motores e um deles é um motorzinho ainda pequeno.

A versão que hoje é tornada pública é a primeira versão, ainda numa fase beta. Esta fase estender-se-á por mais 3 a 4 meses. Durante a fase beta, e dentro de dias, será lançado o projeto irmão do Record, que usa o mesmo “coração do sistema” mas tem diferenciação tanto no processamento da informação como nos modos de visualização. Mais tarde, se tudo correr como previsto (ler: aprovarem o orçamento), o projeto estender-se-á a outro jornal do grupo Cofina. OK, depois digo qual ;) O que posso já dizer é que vamos espremer a informação noutro sentido.

Visualização

Os modos de visualização na fase beta são:

Estes modos de visualização fornecem um olhar sobre a atualidade. Mas os Tópicos são também uma forma enriquecida de navegar pelos arquivos da informação — contamos aqui acrescentar também alguma “inteligência” para proporcionar a descoberta, mais do que melhorar a pesquisa.

Benchmark

Está dito no Acerca dos Tópicos: ainda que não tenha por onde se medir em Portugal (e no Brasil, tanto quanto sei), o projeto tem um enquadramento. Alguns dos melhores — e mais avançados em pesquisa sobre jornalismo online — jornais do mundo possuem iniciativas semelhantes. Serviram de benchmark o Topics do New York Times e o Zeitgeist do Guardian.

O Topics do NYT foi fonte de entusiasmo, devo dizer. Descobri-o precisamente na sequência das pesquisas preliminares, para ver da exequibilidade da minha ideia inicial. Fiquei maravilhado. Decidi que podia fazer melhor.

O Zeitgeist foi mais modelo para um dos modos de visualização, embora não traga nada de novo: bem antes do Guardian o lançar, já eu tinha feito newsmaps como este (foi há 3 ou 4 anos e não funciona mais). Os newsmaps andam aí há uns bons 5 anos, é ver aqui o “pai” de todos eles. Há um jornal espanhol cujo nome agora me escapa que tem um newsmap do mesmo autor. O jornal i também tem um, ao qual não dá relevo.

Curiosamente, já esta semana The Economist lançou também o seu Topics, que é uma versão um pouco simplista, na minha opinião, do que fez o NYT. Nascidos na mesma semana, vamos poder acompanhar o percurso dos dois projetos, o da Economist e o do Negócios.

Papel

Ah, já me esquecia: quer no Jornal de Negócios quer no Record, a aplicação web tem implicações no jornal em papel. No caso do Negócios, estreio hoje uma pequena crónica diária sobre os assuntos que fazem as notícias no mundo (daí os tópicos internacionais). Foi, aliás, por aí que começou a minha proposta ao Pedro Santos Guerreiro.

Cansado de propôr “coisas web” a jornais e televisões, sempre com a mesma resposta em dois movimentos (“é muito giro, compro mas tenho de levar lá acima“, seguido de “ups, sorry, a administração não tem interesse na web“) passados três — 3 — anos nisto decidi começar por uma proposta para o papel, embora usando o colossal mundo de dados disponíveis na Internet e servindo-me dos recursos de jornalista-programador. (Uma ressalva para o António Granado e o José Manuel Fernandes que, no Público, me aceitaram em 2009 uma “cena web” para a maratona eleitoral desse ano.)

Negócios e Record gostaram da proposta para o papel mas surpreenderam-me dispensando maior atenção e carinho à aplicação web propriamente dita. O mundo não está perdido! :)

A crónica no Jornal de Negócios usa como imagem precisamente a nuvem de termos mais comuns nos media internacionais — europeus, sobretudo. A função do cronista é dar contexto e justificar a preponderância dos temas do dia.

Se estou satisfeito?

É claro que estou! Por estes dias tenho parecido um jovem jornalista entusiasmo com a sua primeira artigalhada! Que digo — sinto-me esse jovem jornalista e estou entusiasmado com o privilégio de acompanhar, com responsabilidade profissional, assuntos que me interessam! E fazer o que mais gosto: explorar as alternativas que farão o futuro da atividade da profissão que é a minha há 30 anos.

E depois?

Depois da versão beta virá a versão 1.0, ué. Qual é a dúvida?

Para já: resolver bugs; escutar com atenção o feedback e as sugestões; lubrificar a ligação à conta Twitter própria do projeto, @TopEconomia; afinar os algoritmos.

No banco de ensaios: integração com redes sociais; difusão dos assuntos à medida que se tornam, bem, assuntos; alargamento das fontes; sistema de registo.

Em projeto: aumentar o valor para o assinante (gratuito!) dando-lhe utensílios para tirar partido da informação muito para além da função de leitura; mais formas de visualização do tempo real.